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As águas de
Barão Geraldo e as bacias dos rios das Pedras,
Anhumas, Atibaia e Quilombo (*)
Prof. A .
Oswaldo Sevá Filho, novembro de 2001
[ *
apresentado no evento “ Vivência das águas”, organizado pelas
entidades Sonha Barão e Ama Guará, na EEPG J. Pedro Oliveira,
distrito de Barão Geraldo, Campinas, SP, 10 novembro 2001 com
correções e acréscimos mencionados pelos participantes, durante o
evento ]
Como em qualquer outra região do planeta, para entendermos como
funcionam as águas e os rios, como são usados e como se degradam,
como podem ser recuperadas, é preciso observar as partes mais altas,
tentar identificar as “cumieiras”, ou “divisores de águas”, as minas
d’água, os lugares onde a água subterrânea brota numa vertente, ou
numa grota, e observar também as áreas mais baixas, as várzeas e
brejos.
É preciso acompanhar os períodos mais secos e mais chuvosos, e ver
como se dá a infiltração das águas de chuvas,- ou não, quando o
terreno é pavimentado ou pouco permeável -; e como se dá o
escorrimento destas águas pluviais – ou não, quando há obstáculos,
barreiras; e daí, observar nos córregos, rios e baixadas, os pontos
onde chegam as enxurradas.
É preciso identificar os locais onde desembocam as galerias de águas
pluviais coletadas nas ruas, pelas grelhas e “bocas de lobo”, e onde
chegam os canos e as valas trazendo esgotos e águas servidas, de
casas, de empresas, de fazendas e sítios. Comecemos por um panorama
geográfico de conjunto:
1. O distrito de Barão Geraldo ocupa a porção norte do
município de Campinas, e a maior parte do seu terreno tem córregos,
riozinhos e açudes que fazem parte da bacia do rio das Pedras, que
nasce entre o Alto do Taquaral e o Jardim Primavera, e que, após
passar pela sede do distrito, desemboca na margem esquerda do rio
Anhumas, num ponto situado na parte mais baixa do Guará, entre o
clube Hipica Barão e a ponte de acesso à empresa Sintermet -
Salesteel. ( ver mais detalhes adiante )
2. O rio Anhumas, por sua vez, se forma nas partes altas da
sede urbana de Campinas, entra em Barão perto do Bosque das
Palmeiras e do Jardim Cidade Universitária, e, após receber o rio
das Pedras, vai desembocar na margem esquerda do rio Atibaia, dentro
do terreno da indústria Rhodia. ( ver mais detalhes adiante )
3. Uma área menor do distrito faz parte de uma bacia fluvial
vizinha, a do rio Quilombo: os terrenos situados entre Betel, as
partes altas da Mata Santa Genebra, e dos bairros Terra Nova, Parque
Ceasa e São Gonçalo, e dali até a via Dom Pedro I e chegando até
perto do 1o. balão de acesso à sede do distrito. Os principais
formadores deste rio vêm dos terrenos altos entre o Chapadão e o
Jardim Eulina, incluindo as glebas do Exercito( 11o BIB e Escola de
Cadetes ) e dos terrenos da Fazenda Santa Elisa, entre a Estrada dos
Amarais e o “tapetão” Vila Nova – Barão Geraldo, onde existem vários
açudes ainda limpos.
Todos estes riozinhos aí formados se juntam depois, numa extensa
várzea, com brejos e lagoas, que vai desde a pista Campinas –
Paulínia, ao lado do trevo de Barão, passa por trás do Ceasa, e
prossegue pelo Jardim São Marcos e a área entorno da loja Uemura, e,
continua do outro lado da Dom Pedro I perto do Aeroclube dos
Amarais.
Desta planície em diante, o rio Quilombo sai do município de
Campinas e passa pelos distritos de Matão e Nova Veneza, por bairros
de Hortolândia, e perto das áreas centrais de Sumaré, de Nova
Odessa, e de Americana, e aí, após ser represado na antiga
hidrelétrica de Cariobinha ( CPFL ), desemboca no rio Piracicaba,
pela margem esquerda.
4. E, uma outra faixa do distrito de Barão, que fica no
limite Norte do município de Campinas ( divisas com Paulínia e com
Jaguariúna ), são terrenos da margem esquerda da bacia do rio
Atibaia, que acompanha os meandros do rio e suas antigas lagoas de
várzea, desde o Vale das Garças, o Village, boa parte da antiga
Fazenda Monte d’Este ( Tozan ) e até perto do bairro Bananal, na
rodovia Campinas a Mogi Mirim. ( ver mais detalhes adiante ).
5. Uma primeira conclusão prática pode ser tirada: para a
sede do distrito de Barão, o rio que mais importa é o rio das
Pedras, mas, para o conjunto do território do distrito, temos que
nos preocupar igualmente com os rios Anhumas e Atibaia, de um lado,
e com o rio Quilombo, de outro lado. Em resumo, estamos nas bacias
do Anhumas e do Atibaia, e uma parte na bacia do Quilombo.
Mas, isto não basta, pois a preocupação com estes rios e com a
ocupação e uso dos terrenos em suas bacias fluviais, deve ser a
preocupação de todos em Campinas – além de se preocuparem também com
o rio Capivari e sua bacia, que estão na metade Oeste, onde vivem
quase dois terços dos habitantes da cidade.
6. Para avançarmos nesta compreensão, no nosso caso das águas
do distrito de Barão Geraldo, é também, indispensável ter certeza
sobre a direção da correnteza dos rios, e sobre as variações do
nível da água nas várzeas e lagoas, sobre os locais onde funcionam
bombas de captação de água, os pontos dos açudes e “lagos” onde
ficam as comportas, e sobre os locais de todas as pontes e
pinguelas, dos tubulões, e de arrimos, taludes, muros e outras obras
feitas nas barrancas dos rios e nas várzeas.
É preciso ter dados confiáveis sobre os grandes volumes de água
consumidos e os correspondentes esgotos , de cada bairro, dos
prédios, das coletividades e das empresas, dos sítios e fazendas.
Saber se as descargas vão para fossas, se fazem sumidouros, se
lançam direto em valas, córregos ou rios, - ou - se são coletados
pela rede da Sanasa, - e- neste caso, já sabemos que há problemas
com as redes coletoras antigas e com as que foram instaladas há
poucos anos, e, ... que não está sendo tratado, como devia ser, numa
Estação de tratamento de esgotos ( ETE ).
7. A maioria dos moradores e empresas na sede do distrito de
Barão tem água canalizada da rede municipal, captada no rio Atibaia
em Souzas, ( e tratada nas Estações de tratamento de água na rodovia
Campinas Souzas e bombeada até Barão Geraldo ); pagam para a empresa
municipal Sanasa as suas contas de água, incluindo uma taxa de
coleta de esgoto, que está sendo lançado no rio das Pedras, lá no
seu final, na foz com o rio Anhumas. Alguns dos bairros fechados,
tipo Condomínio, instalaram redes coletoras de esgoto, mas em geral
não têm qualquer tratamento e acabam lançando direto em algum rio ou
córrego.
8. Já em bairros mais novos, e ou mais distantes, a água vem
de poços e as casas têm fossas ; portanto, há problemas de
contaminação; na maioria dos casos, somente agora se começa a fazer
análises da qualidade da água dos poços. Se esta água for captada no
subsolo a partir de um lençol subterrâneo que re-carrega o rio
conforme vai recebendo água do solo por infiltração, aí o seu uso na
superficie e sua devolução podem não alterar muito a vazão dos rios.
Mas, se a água vier de poços profundos, e dos chamados artesianos, o
seu uso e posterior descarga como esgoto também fazem aumentar o
volume geral de esgotos e a vazão dos rios onde são lançados.
9. Daí, se pode tirar outras afirmativas um tanto lógicas:
* uma vazão de água proveniente do Atibaia, lá de Souzas, é aqui
usada e se transforma em esgoto que vai aumentar a vazão natural do
rio das Pedras e do Anhumas a partir do ponto onde hoje “termina” o
tubulão da Sanasa.
* pelo fato de “vir de Campinas”, o Anhumas já está com sua vazão
natural também aumentada; pelo fato de “vir de Campinas”, o rio das
Pedras pode estar com sua vazão natural também aumentada, dependendo
de para onde estão indo os esgotos dos bairros que ficam na sua
bacia.
10. Assim, a situação dos rios quando passam pelo distrito,
depende primeiro do quê acontece nos terrenos de sua bacia fluvial
“rio acima”, e depois, do quê acontece em todos os terrenos do
distrito, cujas águas descem para o rio das Pedras, e, no trecho
entre o Guará, o Bosque das Palmeiras e o Village , descem para o
Anhumas.
E de onde vêm o rio das Pedras, o rio Anhumas, o rio Atibaia ?
11. O rio das Pedras se forma na “cumieira” do alto do
Taquaral – desde o Parque Taquaral, passando pela caixa d’água da
Sanasa ( final da avenida Almeida Garrett ) e pela rua das
Hortências até as torres de apartamentos da Chácara Primavera, daí
até o balão do campus I da Puccamp. No seu primeiro brejo, ainda na
parte alta, os bairros e ruas não avançaram até as margens, e sobrou
uma área pública protegida em torno do riozinho; é um trecho do
polêmico e inacabado projeto “Parque Linear”, da Prefeitura de
Campinas e seus parceiros empresariais.
12. Logo depois deste brejo, entre os bairros Fazenda Santa
Cândida e Jardim Santa Genebra, uma operação urbanística monumental:
largas faixas de terrenos nas duas margens do rio das Pedras foram
terraplanadas, novas avenidas foram rasgadas, foi feito um novo
açude, e, uma área construída de muitos milhares de metros
quadrados, bem ao lado da margem direita do rio. É o “shopping Dom
Pedro”, quase pronto no atual mês de Novembro de 2001, e que previu
um sistema de água e esgoto um pouco diferente do usual: utilizará
uma pequena vazão de água tratada da Sanasa, e furou alguns poços
bem profundos de onde vai tirar quase toda sua água de serviço. Com
o esgoto produzido e tratado, fará uma re-utilização estimada em 60
a 70 % do esgoto após tratamento, para funções em que não é
necessário usar água potável : sanitários, jardinagem, lavagem geral
de pisos e resfriamento de máquinas e dos sistemas de ar
condicionado.
O açude construído no acesso Sul da área, represando o riozinho das
Pedras, parece ter sido projetado como um “piscinão”, e terá a vazão
de saída nas comportas controlada pela empresa; talvez seja usado
também como decantação da água servida recirculada. A publicidade
nos dias da inauguração das obras viárias da Dom Pedro para ao cesso
ao Shopping registrava previsões de 70 mil pessoas por dia durante a
semana e 150 mil nos finais de semana e feriados; e informava que a
ETE construída está dimensionada para tratar 2 milhões de litros /
dia, ou cerca de 23 litros por segundo. Em termos de esgoto
doméstico, esta vazão seria produzida por uns 5 a 7 mil habitantes.
O volume de águas pluviais deve ser também bastante grande, e
deve-se contar com uma coincidência provável, algumas vezes por ano,
de uma vazão maior jogada no rio das Pedras com uma temporada de
chuvas mais volumosas, o que complicará, mais do que o já observado,
os efeitos da enxurrada e da subida do rio dali para baixo.
13. Dali, o rio passa sob a via Dom Pedro, entra na área da
colônia e da sede da antiga fazenda Santa Genebra, onde ainda existe
uma matinha, ( visível para quem está na área hospitalar da Unicamp
) e depois, entra na área urbana de Barão Geraldo, passando por
baixo da avenida 1, ao lado do colégio Rio Branco. Dali, até a
avenida 2, foi feito um outro pedaço do “Parque Linear”, e depois o
rio passa sob a avenida entre as duas áreas comerciais ( Posto
Texaco, e Tilli center ) , as quais avançaram com a área construída
até a barranca da margem esquerda do rio das Pedras. Logo a seguir,
um novo hotel em construção e alguns prédios já construídos
cometeram a mesma ilegalidade, de avançar sobre os trinta metros de
proteção.
Dali, o rio passará sob a avenida 3, logo depois recebe pela direita
o córrego que passou por toda a área da Unicamp, incluindo os dois
açudes na Cidade Universitária ( o da Parque Ecológico e o que fica
entre o centro Médico e a Funcamp , além de três outros, menores,
dentro do campus universitário.
No terreno da universidade, que deveria dar sempre o exemplo e
aplicar as soluções mais adequadas, também há problemas pendentes :
alguns trechos longos deste e de outros córregos estão canalizados e
cobertos de terra, em alguns casos, sob os gramados, mas em outros,
sob as ruas, e estacionamentos; havia várias minas d’ água em glebas
que foram construídas, mas algumas ainda resistem à urbanização; uma
nova avenida de duas faixas foi feita também sem respeitar a
distância dos córregos.
A universidade inicialmente só usava água da Sanasa, da qual se
tornou uma grande devedora, e de uns anos para cá, iniciou a
perfuração de poços profundos; pretende ser auto-suficiente com seus
poços no futuro. Os esgotos da Unicamp têm características
especiais, por terem uma proporção de esgoto hospitalar, ( onde já
houve uma experiência piloto de tratamento eletrolítico, depois
paralizada ), outra parte de serviços de alimentação e de
sanitários, de uma população flutuante com variações sasonais e
diáriais, e uma outra parte formada por centenas de atividades tipo
industriais, oficinas e laboratórios variados, mais a garagem e um
posto de combustível, um serviço de hotelaria, piscinas. Durante
várias ocasiões, houve extravazamento de esgoto no açude do Parque
ecológico; e atualmente, está tudo oficialmente ligado ao tronco
coletor da Sanasa que passa na baixada do rio das Pedras.
Conforme informou um engenheiro do escritório técnico da Prefeitura
do Campus no evento de 10 de novembro, um projeto de ETE custando 3
milhões de reais está começando a ser contratado e prevê começar a
operar em um ano e meio; vão ser tratados 1, 4 milhão de litros/ dia
ou cerca de 16 litros por segundo; em termos de esgoto doméstico de
bairros, seria equivalente a 3 a 4 mil pessoas. Foi afirmado também
que alguns setores como laboratórios terão tratamentos especificos,
em separado; e que também seria tratado o esgoto proveniente do
bairro Parque das Universidades e que já desce pelo mesmo duto
atual.
Descendo novamente o rio das Pedras, no balão do condomínio Barão do
Café, ele passa sob a primeira ponte, e recebe pela esquerda o
córrego Burato, após ele ter passado por três açudes dentro da
fazenda Rio das Pedras. Este córrego se forma na mesma várzea antes
ligada à varzea do Quilombo, numa espécie de “águas emendadas” entre
duas bacias distintas. Parece que o traçado da Campinas – Paulínia e
a construção do Jardim Independência alteraram esta peculiaridade:
hoje, um córrego que nasce próximo à Fundação Sindrome de Down, está
soterrado, reaparece nas hortas e passa sob a pista da rodovia, indo
se juntar à varzea do Quilombo; e do outro lado, nos terrenos perto
das Carmelitas e do final do Jardim Independência, brota a água que
forma o córrego Burato.
Ali está hoje um foco de problema pendente em Barão Geraldo,
especificamente para os moradores do Recanto Iara, do Tupã, até o
trecho em que o córrego passa por debaixo da avenida Santa Isabel:
um dos tubulões da Sanasa está interrompido em sua ligação com o
tronco coletor principal, despejando esgoto direto no brejo e
provocando mau cheiro em toda a região. Segundo informou o
representante da Sanasa, na reunião havida dia 10 de novembro, a
ligação não pode ser feita pois faltou o acordo de um proprietário;
e , segundo informou a subprefeita, a reconstrução da obra pela
Sanasa naquele trecho do brejo está sendo impedida por decisão do
Condepac.
Descendo o mesmo córrego, ele passa depois por baixo da ponte da rua
José Martins, ao lado de uma casa de máquinas da Sanasa, onde se
fazia anteriormente o bombeio do esgoto, e aí entra na fazenda Rio
das Pedras , forma dois açudes, que já estão com bastante carga
orgânica. O terceiro açude, o maior de todos na região, e que tem um
extenso bosque na margem Norte, recebe também outros córregos, um
deles é o que nasce na mata Santa Genebra, perto do condomínio
Bosque do Barão, passa pelo Novo Real Parque, entra num tubulão
debaixo da rodovia Campinas Paulínia, ao lado da qual há um açude
pesqueiro que também desagua neste córrego. No início da várzea
deste açude, havia uma estação de captação de água da Sanasa, no
final da Vila Santa Isabel.
14. No mesmo balão da entrada do condomínio Barão do Café, o
rio das Pedras após receber a água liberada pela comporta do açude
da fazenda, passa pela ultima vez sob a estrada da Rhodia, depois,
passa sob a ponte do acesso ao Guará, recebe ainda um córrego, (
pela esquerda, formado pelo açude que foi feito na parte alta do
Condomínio Rio das Pedras ) e deságua no rio Anhumas, no Guará.
Neste trecho, é jogado no rio o esgoto do distrito, inclusive o da
Unicamp, coletado pela Sanasa; e é neste trecho que está prevista a
construção de uma ETE para tratar exatamente este esgoto.
15. O rio Anhumas, neste trecho, já está bem próximo de seu
final, pois passará pela Vila Holândia, pela área do condomínio
Lagoa Serena e da vila São Francisco, depois sob a 1ª ponte da
estrada da Rhodia, ainda no município de Campinas, e em seguida vai
entrar no município de Paulinia, passar sob a segunda ponte, passar
pelo terreno da Rhodia e desaguar no Atibaia,, também dentro da
Rhodia.
Só que, ao chegar naquele ponto do Guará, e mesmo antes de receber o
esgoto de Barão Geraldo, o rio Anhumas já está praticamente morto,
de côr sempre escura, às vezes verde, às vezes azulada, cinzenta,
quase preta, com bôrras oleosas, uma enorme carga orgânica,
detritos, flocos e rastros de espuma nas corredeiras, sem peixes.
16. Mas , afinal, de onde vem o Anhumas? E porque chega no
distrito de Barão Geraldo neste estado? E quem sofre com as
consequências disto ?
Este é um dos rios mais poluídos do país, pelo fato de atravessar
quase metade da área urbana de Campinas e de trazer em sua
correnteza quase metade também do esgoto da cidade ( o equivalente a
mais de quatrocentos mil habitantes) e mais as descargas de algumas
indústrias e serviços com grande volume de águas pluviais e esgotos,
( caso dos shoppings, grandes lojas, clubes, estacionamentos ,
garagens e oficinas ) . Praticamente nada disto é tratado, embora os
dados oficiais apontem uma coleta de esgotos em mais de 90 % das
residências e atividades instaladas.
17. Os terrenos da bacia do Anhumas começam na grande
“cumieira” que divide a cidade de Campinas começando pela parte mais
alta da Estrada de Souzas, onde ficam as ETAs, da Sanasa, ( que
capta 90 % da água consumida na cidade no rio Atibaia, em Souzas,
proximo à rodovia Dom Pedro I) . Este divisor vem contornando pela
parte alta do Gramado, do Parque Ecológico, onde forma o córrego
Mato dentro, depois continuando pelo alto dos bairros São Fernando,
Vila Lemos, Ponte Preta, onde se forma o córrego Proença ( avenidas
Princesa d’ Oeste e Norte Sul ); daí, a linha da ferrovia antiga
Paulista, acompanha o divisor de águas, passando pela Estação
Ferroviária, e seguindo depois pelo Botafogo e Castelo, - onde se
forma o córrego do Mercado ( avenida Orozimbo Maia ) - e daí
seguindo pelo alto da Avenida Brasil e até o Alto do Taquaral – onde
nascem os córregos que formam os açudes do Lago do Café e do Parque
Portugal ( Lagoa do Taquaral ); e daí o divisor segue pela outra
“cumieira” já citada, em direção à Puccamp, campus I e aos terrenos
altos entre a Unicamp e a área do CPQD Telebrás e da Fazenda Pau
d’Alho.
18. Toda esta parte da cidade de Campinas, desde esta linha
mais alta, e virada para os lados Leste e Norte, conduz para a calha
do rio Anhumas as suas águas pluviais contaminadas, com a areia e o
barro arrastados de todas as erosões e obras, e com o lixo das
margens, e ainda descarrega nele todo o seu esgoto.
É esta vazão que chega em Barão Geraldo, na altura do Jardim Cidade
Universitária, e passando pela parte baixa do Guará, acrescida de
mais algumas outras, ( resultados do que acontece com as descargas,
águas pluviais e as obras no trecho próximo ao Carrefour Dom Pedro,
e depois perto do Jardim Miriam, do Alphaville, e do “polo de alta
tecnologia” em torno da Telebrás ).
É isto que explica a podridão do rio Anhumas, ao chegar em Barão.
E é isto que explica uma boa parte da podridão do rio Atibaia depois
de receber seu afluente Anhumas.
19. Entretanto, o Atibaia já chega ali naquele ponto, após o
vale das Garças e entrando na Rhodia, com sua vazão bastante
diminuida, em relação à vazão natural, e com alguma poluição trazida
dos lugares por onde passou antes.
E o Atibaia, por onde passa, antes de chegar por aqui ?
Em resumo, este rio é sangrado logo após a sua formação , ainda no
alto da Mantiqueira, na região de Piracaia e de Nazaré Paulista, com
dois imensos reservatórios dos rios Cachoeira e Atibainha, dos quais
se retira onze mil litros por segundo de água para o abastecimento
de São Paulo ( Sistema Sabesp “Cantareira’” ); a descarga que a
Sabesp nos concede é estipulada em lei e não pode ser menor do que
mil litros por segundo. Dali para baixo, várias cidades retiram água
e devolvem esgotos, em geral, sem tratamento, ou com pequenas vazões
tratadas: Bom Jesus dos Perdões, Joanópolis, Atibaia, Itatiba. Neste
ponto, além das cidades ribeirinhas, também a cidade de Jundiaí, que
fica em outra bacia, retira no Atibaia mil litros por segundo, que
depois são descarregados no rio Jundiaí, após tratamento numa ETE
construída há poucos anos.
Ao entrar em Campinas, o Atibaia, com a vazão diminuida e uma carga
crescente de esgoto lançado, recebe o ribeirão dos Pinheiros, que
vem trazendo o esgoto ainda não tratado de Valinhos, uma parte do
esgoto de Vinhedo e o afluente ribeirão Samambaia que vem da zona
Sul – Sudeste de Campinas, e onde acabou de ser inaugurada uma ETE
da Sanasa.
20. Aí também reside um dos focos pendentes de riscos: logo
após receber o ribeirão dos Pinheiros, fica a captação da Sanasa
para Campinas. O custo do tratamento é crescente e já houve
episódios de contaminação por toxinas causadas por excesso de algas
no rio. Passando por Souzas, o rio Atibaia ainda recebe pela margem
esquerda o ribeirão dos Pires ou Conceição, que carrega o lodo
contaminado resultante do processo de tratamento de água nas ETAs,
despejado pela própria Sanasa; e pela margem direita o ribeirão das
Cabras, que está sujo depois de passar pelas áreas urbanas de
Joaquim Egidio e de uma parte de Souzas. Deste ponto até chegar no
distrito de Barão Geraldo , o rio passa perto de alguns condomínios
e loteamentos, depois fica cheio de corredeiras e ilhas, passa sob
as “Tres Pontes”, na estrada Souzas –Pedreira, depois passa por
fazendas, no Hotel Solar das Andorinhas, proximo à subestação
Tanquinho, de Furnas, depois pelo bairro de Carlos Gomes, e, na
margem de Jaguariuna, os bairros do Tanquinho Velho e do Varjão.
21. Pois bem, preparando-se a nossa conclusão, temos que
pensar que a mesma coisa que acontece em Barão Geraldo, acontece em
muitos outros pontos da região metropolitana de Campinas, e do nosso
município: os córregos, ribeirões e rios estão muito ruins, mortos
ou quase mortos, principalmente em épocas de estiagem.
Nas épocas de mais chuva, além dos dramas dos atingidos por
enchentes e desbarrancamentos, vêm as enxurradas imundas, oleosas,
contaminadas com resíduos químicos, cheias de entulhos, ainda,
disseminam bactérias e parasitas que provocam doenças. E,
relembrando a fábula do lobo e do cordeiro, é sabido que quem polui
o rio prejudica quem está rio abaixo; e quem capta água prejudica
quem está abaixo e quem está acima. E quem está abaixo do Anhumas e
do rio das Pedras ?
22. Neste ponto, não se trata de culpabilizar este ou aquele,
mas, a divisão de responsabilidades tem que ser clara, com
fundamentos, pois tudo depende de quem está onde, quanta água
consome e quanto esgoto produz, como e onde descarrega.
O distrito de Barão Geraldo recebe o rio das Pedras já alterado ( e,
com a construção e operação do shopping Dom Pedro, pode piorar... )
e joga nele toda sua água pluvial e seu esgoto. E isto vai perdurar
enquanto os troncos coletores devolverem o esgoto somado de várias
bairros nos próprios córregos e no rio das Pedras. Estimo que a
parte do distrito de Barão na poluição do rio Anhumas é, em volume e
carga poluente, algo entre uma quinta e uma sexta parte do total.
Se for feita a ETE da Unicamp, e funcionar adequadamente, e, se for
feita a ETE de Barão Geraldo, na baixada do Guará, aí o rio Atibaia,
em Paulinia, receberia um quinto ou um sexto a menos de carga
poluente.
Se for feita também a ETE para o esgoto de Campinas, ( o local
previsto é a baixada entre o Careca Center, o Jardim Imperador e a
via Dom Pedro ), aí sim, melhora bem a situação do distrito, pois o
Anhumas seria menos pestilento, e, aí sim, a nossa parte, de
Campinas inteira, na morte do rio Atibaia em Paulínia chegaria perto
de zero. O que já é exigido pelos demais municípios há vinte anos, e
o quê ainda pode demorar muitos anos a se tornar realidade.
23. E, ainda assim, rio abaixo, a coisa continuaria feia : as
descargas de todas as grandes e médias indústrias de Paulinia, as
águas sujas de seus pátios de tanques e de caminhões, e ainda, quase
todo o esgoto urbano de Paulínia ( que busca a sua água em outro
rio, no Jaguari ) - continuariam a ser despejadas no trecho final do
rio Atibaia, e na represa de Americana, por ele formada, com a
barragem construída há cinquenta anos, e uma central hidrelétrica
instalada, de 30.000 kilowatts de potência.
Estes são os prejudicados, e ficam sob riscos crescentes : no rio
Atibaia abaixo de Campinas e de Barão Geraldo, muitos sitiantes e
fazendas captam água; muitas indústrias também captam ( exceto a
Replan que capta no rio Jaguari e outras que captam em poços
profundos ). Logo abaixo de Paulínia, há uma captação municipal de
água, que abastece um quarto da população de Sumaré, e, por ali
muitas aves migratórias frequentam o “mini- pantanal”. Após a
represa, o Atibaia desemboca no Jaguari, que passa a se chamar
Piracicaba, e, novamente, muitas captações de água, para indústrias
e para a cidade de Americana.
aosf |