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"Um cara desses"
junho 2007
ELIANE
CANTANHÊDE
Quando os filhos são pequenos, chutam a canela da empregada, e os pais
acham "natural", fingem que não vêem. Já maiores um pouco, comem o que
querem, na hora em que querem, não falam nem bom-dia para o porteiro e
desrespeitam a professora. Na adolescência, vão para o colégio mais
caro, para o judô, para a natação, para o inglês e gastam o resto do
tempo na praia e na internet. Resolvido.
Dos pais, ouvem sempre a mesma ladainha: o governo não presta, os
políticos são todos ladrões, o mundo está cheio de vagabundos e
vagabundas. "E quero os meus direitos!" Recolher o INSS da empregada,
que é bom, não precisa.
É assim que os filhos, já adultos, saudáveis, em universidades, são
capazes de jogar álcool e fósforo aceso num índio, pensando que era "só
um mendigo", ou de espancar cruel e covardemente uma moça num ponto de
ônibus, achando que era "só uma prostituta".
A perplexidade dos pais não é com a monstruosidade, mas com o fato de
que seu anjinho está sujeito -em tese- às leis e às prisões como
qualquer pessoa: "Prender, botar preso junto com outros bandidos?
Essas pessoas que têm estudo, que têm caráter, junto com uns caras
desses?", indignou-se Ludovico Ramalho Bruno, pai de Rubens, 19.
Dá para apostar que ele votou contra o desarmamento, quer (no mínimo)
"descer o pau em tudo quanto é bandido" e defende a redução da
maioridade penal. Cadeia não é para o filho, que tem estudo e dinheiro,
um futuro pela frente. É para o garoto do morro, pobre e magricela, que
conseguir escapar dos tiroteios e roubar o tênis do filho.
Isso se resolve com o Estado sendo Estado, com justiça, humanidade e
educação -não só com ensino para todos e professores mais bem treinados
e mais bem pagos, mas também com a elementar compreensão de que "o
problema", e os réus, não são os pobres. Ao contrário, eles são as
grandes vítimas . |