Os futuros cidadãos brasileiros
- fevereiro 2008 -

Para entender a situação Brasil é necessário entender e interpretar números. O conhecimento e consciências das grandezas numéricas é que leva à compreensão real da situação Brasil. De forma bem generalizada, quase total, o brasileiro não gosta e não quer entender os números. É necessário que as pessoas com pretensão de cidadania consciente se esforcem para entenderem os números, pois só assim terão consciência da situação. A matéria abaixo é ótimo exercício para compreender a situação das crianças em nosso país.



Da reportagem do Correio Braziliense www.correioweb.com.br .
Paloma Oliveto - Da equipe do Correio - Kleber Lima/CB


Francisca Maria Braga dos Santos, desempregada, sustenta o marido e três filhos com R$ 112 mensais do Bolsa Família.

A casa de Tiago, 5 anos, fica no alto de um barranco em Lago Azul (GO), no Entorno do Distrito Federal. Não tem reboco, portas internas, cimento no chão. São poucos os brinquedos do menino, que toma banho com água de poço e não tem acesso a esgotamento nem fossa sanitária. "Tem dia que falta o que comer", conta a mãe, Francisca Maria Braga dos Santos, 37 anos, desempregada. Tiago é uma das 29,6
milhões de crianças e adolescentes em situação de pobreza. De acordo com o relatório Situação Mundial da Infância 2008, divulgado ontem pelo Unicef, o número de meninos e meninas de até 6 anos que vivem em famílias com menos de meio salário mínimo per capita é de 11,5 milhões.

Do total de crianças consideradas pobres, 66% são negras. O Nordeste concentra a maior parte das famílias brasileiras nessa situação: das 7 milhões em situação de pobreza, 5 milhões são nordestinas. Em
termos percentuais, 45,4% das famílias brasileiras com crianças de até 6 anos estão vulneráveis economicamente. A representante do Unicef no Brasil, Marie-Pierre Poirier, destaca a relevância do Bolsa
Família, principal programa do Fome Zero, na luta pela redistribuição da riqueza no país.

Os R$ 112 mensais recebidos por manter os dois filhos mais velhos na escola são a única renda de Francisca. O marido sofreu um acidente e, embora não possa trabalhar, tentou, sem sucesso, receber aposentadoria por invalidez. Além de Tiago, ela é mãe de um menino de 9 anos e de uma garota de 14. "É só com esse dinheiro que eu vivo",
conta a mulher. A ajuda, porém, não é suficiente. Ontem, o almoço da família era arroz puro. Francisca está preocupada porque, no mês que vem, recomeçam as aulas na rede pública. "Vou usar o dinheiro da
bolsa para comprar o material das crianças. Não sei como vou fazer para pagar as contas", diz.

A saída da educação
Hoje, Francisca vai tentar conseguir uma vaga para Tiago na pré-escola, onde o menino terá acesso, além do ensino, à merenda. Para Marie-Pierre Poirier, é na educação que crianças como ele conseguirão quebrar o ciclo da desigualdade. Com a universalização do ensino entre brasileiros de 7 a 14 anos, a preocupação do Unicef, além da qualidade, é com a inclusão de crianças de até 6 anos.

"O acesso à educação infantil em creches e pré-escolas é fundamental para a garantia do desenvolvimento pleno da criança de até 6 anos. É nesse período que meninas e meninos desenvolvem capacidades, habilidades e conhecimentos que podem transformar de forma positiva toda sua vida", diz o relatório do Unicef.

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que uma criança que freqüenta pelo menos dois anos de educação infantil, quando adulta, tem seu poder de compra aumentado em 18%.
Outra pesquisa, do Banco Mundial, realizada em creches gratuitas do Rio de Janeiro, comprovou que mulheres pobres com filhos matriculados em creches e pré-escolas aumentaram sua renda em até 20%.

O percentual de crianças matriculadas na educação infantil, porém, aponta o Unicef, ainda é insuficiente. Apenas 15,5% dos brasileirinhos de até 3 anos freqüentam creches. No Norte, o percentual despenca para 8%. Em todo o Brasil, 76% das meninas e meninos entre 4 e 6 anos estudam. Dois milhões e 200 mil estão fora da pré-escola.

Sem creches
Em Vila Guaíra (GO), há apenas uma instituição pública de ensino infantil. É pouco para abrigar todas as crianças do povoado humilde, localizado a cerca de 30km do Plano Piloto. Raymara Fernandes Araújo, 17 anos, tentou matricular a filha, Rayza, 3 anos, na creche, mas não conseguiu vaga. "Estou preocupada porque preciso trabalhar e não tenho com quem deixar minha filha", diz.

A mãe de Raymara, Raimunda Fernandes Barro, 33 anos, é diarista e não pode cuidar da neta o dia inteiro. Ganha em média R$ 100 mensais com as diárias e prevê que o dinheiro não será suficiente para matricular a menina em uma creche particular. "O jeito vai ser pagar alguém para olhar ela", diz, embora confesse ter medo de entregar Rayza nas mãosde um estranho.

De acordo com o Plano Nacional de Educação (PNE), em 2011, 50% das crianças de até 3 anos e 80% das de 4 e 5 anos estarão matriculadas em instituições de educação infantil. Com a aprovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), desde 2007 são assegurados repasses federais às creches e pré-escolas dos municípios. "Foi um passo extremamente importante", reconhece Marie-Pierre Poirier.

Desenvolvimento infantil
Uma boa notícia apresentada pelo relatório do Unicef é que, pela primeira vez, nenhum estado brasileiro apresentou Índice de Desenvolvimento Infantil (IDI) menor que 0,5, considerado baixo. O índice, elaborado pelo Unicef, varia de 0 a 1, valor máximo que ummunicípio, estado ou região deve alcançar no processo de sobrevivência, crescimento e desenvolvimento das crianças no primeiro período de vida.

O IDI é composto por quatro indicadores: escolaridade dos pais, imunização das crianças menores de 1 ano, cobertura pré-natal e matrículas na pré-escola. No ranking, São Paulo, Santa Catarina e Rio  de Janeiro aparecem com os melhores IDIs: 0,856; 0,828, e 0,806. O Distrito Federal vem em seguida, com 0,794.

Os destaques, de acordo com o relatório, foram Alagoas, que, com 0,574, conseguiu sair da classificação de desenvolvimento infantil baixo, e Amazonas, que avançou nove posições em relação à avaliação anterior, apresentando IDI de 0,669. Com isso, é o 16º colocado no ranking das 27 unidades da federação. O estado com pior índice é o Acre, com 0,562.


Brasil
5 milhões das 7 milhões de famílias brasileiras consideradas pobres estão no Nordeste.

São Paulo
0,856 é o Índice de Desenvolvimento Infantil (que vai até 1) do estado. É o melhor do Brasil

Distrito Federal
0,794 é o Índice de Desenvolvimento Infantil (que vai até 1) do DF. É o quarto do Brasil

Acre
0,562 é o Índice de Desenvolvimento Infantil (que vai até 1) do estado. É o pior do Brasil


Progressos insuficientes na África e na Ásia
A África e a Ásia são os continentes com menores probabilidades de sobrevivência para crianças de até 5 anos. Embora o índice de mortalidade nessa faixa etária tenha diminuído em todo o mundo, com número abaixo de 10 milhões de mortes por ano, o relatório Situação Mundial da Infância, do Unicef, indica que os progressos para alcançar o Objetivo de Desenvolvimento do Milênio 4, de redução dos índices, foram insuficientes.

De 1990 a 2006, a África subsaariana registrou queda anual de 1% na taxa de mortalidade infantil, passando de 187 óbitos em mil para 160. Para alcançar as metas da Organização das Nações Unidas, o índice terá de sofrer redução, a cada ano, de 10,5% até 2015. Na África Ocidental e Central, cuja taxa de mortalidade de menores de 5 anos é 186 em mil, o Unicef observa que não houve qualquer avanço. Já na Ásia Meridional, a queda no índice de 1990 a 2006 foi de 2,5% por ano, considerada insuficiente pelo órgão da ONU.

Segundo o relatório do Unicef, a cada dia, em média, cerca de 26 mil crianças menores de 5 anos morrem em todo o mundo. Quase 40% de todos os óbitos nessa faixa etária ocorrem durante o período neonatal — o primeiro mês de vida —, e são causadas por complicações como infecções, doenças contagiosas, pneumonia, entre outros motivos.

Metade das mortes estão relacionadas à desnutrição. "Água imprópria para consumo, práticas de higiene precárias e saneamento inadequado não são responsáveis apenas pela permanente incidência de doenças diarréicas: são também um fator que contribui de maneira significativa para as mortes de menores de 5 anos causadas por pneumonia, distúrbios neonatais e subnutrição", aponta o texto do documento.

A pneumonia, de acordo com o Unicef, mata mais crianças do que qualquer outra doença — mais do que Aids, malária e sarampo, juntos. "A prevenção é tão importante quanto a cura na redução das mortes infantis causadas pela pneumonia. As medidas preventivas mais importantes para a criança são nutrição adequada — inclusive aleitamento materno exclusivo, suplementação de vitamina A e ingestão de zinco —, redução da poluição do ar dentro de casa e aumento das taxas de imunização, por meio de vacinas que podem ajudar a evitar que a criança desenvolva infecções que levem diretamente à pneumonia", diz o relatório.

Para a representante do Unicef no Brasil, Marie-Pierre Poirier, no geral, os índices de mortalidade têm diminuído, mas "é preciso acelerar os esforços". Segundo ela, se o ritmo de queda continuar no ritmo atual, o objetivo do milênio não será cumprido. De 1990, quando os ODMs foram lançados pelas Nações Unidas, até 2006, houve redução de 23% na taxa. Até 2015, será necessária uma queda de 50%. (PO)

 

 

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