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.. Elite brasileira perde em escala de ensino Não é apenas a educação pública no Brasil que apresenta resultados muito inferiores à média de países desenvolvidos. O desempenho dos alunos da elite brasileira no ensino fundamental também está muito abaixo dos padrões internacionais de países mais ricos ou em desenvolvimento. Estudo do pesquisador Creso Franco, da PUC do Rio, divulgado pelo Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade), mostra que os alunos mais ricos do Brasil têm desempenho inferior aos estudantes das classes mais altas de outros países. O estudo tem como base as notas dos melhores alunos de cada país nos resultados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). Apenas 21% dos alunos da elite brasileira conseguiram notas que os colocavam nos dois níveis mais avançados de aprendizado, o que indica que conseguem ler e interpretar textos e gráficos com níveis mais avançados de complexidade. O resultado é muito inferior ao encontrado entre as elites dos outros sete países pesquisados: França (57%), Coréia do Sul (55%), Estados Unidos (53%), Portugal (48%), Espanha (46%), Rússia (33%) e México (27%). "Em educação, o lado Bélgica do Brasil não existe ou, se existe, é bem menor do que uma Bélgica , afirmou Franco, fazendo urna referência à frase do economista Edmar Bacha que comparava o Brasil a uma "Belindia" , mistura de Bélgica com índia. Isso porque uma pequena parcela da população vive com indicadores comparáveis aos de um país rico enquanto uma grande maioria vive em condições semelhantes às de nações muito pobres. Para chegar a essa conclusão, Franco comparou as notas dos estudantes que representam a fatia dos 7% mais ricos de países emergentes, como Brasil e México, com o desempenho dos alunos que representam a fatia dos 25% mais ricos nos países desenvolvidos, como Coréia do Sul, Espanha e Estados Unidos. A fatia da elite no Brasil é menor para que seja possível comparar os mesmos grupos socioeconômicos, pois em países desenvolvidos há mais pessoas com padrões de vida mais elevados do que nos países pobres ou em desenvolvimento. Como o estudo de Franco compara apenas a elite brasileira, o perfil dos alunos é de classe média ou alta, que estuda em escolas particulares e que tem níveis baixos de repetência e acesso a bens como computadores conectados à internet. Ou seja, são os estudantes preparados nas melhores escolas brasileiras, aqueles que vivem na porção "Bélgica da "Belíndia. "Isso mostra que algo de muito errado parece estar acontecendo com a educação aqui. E o problema agora não está na repetência, na escola pública ou na qualidade oferecida para a maioria dos jovens. Com as exceções de praxe, a boa escola brasileira não é uma boa escola no mundo globalizado , afirmou Franco. A secretária-executiva do Ministério da Educação, Maria Helena Castro, confirma que os resultados do Pisa mostram que o desempenho dos alunos mais ricos é pior no Brasil do que em outros países avaliados. De acordo com Maria Helena, o Pisa revela que a distância entre os estudantes mais ricos do Brasil com relação aos estudantes mais ricos dos outros países é ainda maior do que a distância entre as notas de alunos pobres daqui e de fora. ANTÔNIO GOIS DA SUCURSAL DO RIO - Folha de São Paulo - 28/09/2002 Brasil participa de programa desde 2000 O Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) é organizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) com o objetivo de avaliar e comparar as habilidades e conhecimentos de jovens de 15 anos. Apesar de não ser um dos 28 países membros da OCDE, o Brasil iniciou sua participação no programa em 2000. Os paises avaliados são, em sua maioria, nações desenvolvidas com PIB per capita superior a U$20.000 (o do Brasil é de US$7.037*). Outros três países em desenvolvimento (México, Rússia e Letônia) também participaram do exame. De acordo com a nota média dos alunos dos países, eles foram colocados em cinco diferentes níveis de aprendizado. O Brasil teve a pior média entre os 32 avaliados. Os maiores níveis (4 e 5) indicam que os estudantes são capazes de interpretar textos com nível maior de complexidade e fazer analises críticas. Os níveis mais baixos indicam que o aluno consegue apenas localizar informações explicitas em um texto. A próxima rodada de testes do Pisa deverá acontecer no próximo ano, terá a participação de mais países e irá privilegiar o aprendizado na área de matemática. ANTÔNIO GOIS DA SUCURSAL DO RIO - Folha de São Paulo - 28/09/2002 Nota da redação: Este valor publicado (U$7.037) não está correto, provavelmente é R$ e não U$. "Escolas ensinam conteúdo defasado" diz educador Carga horária menor, currículo extremamente normativo e falta de preparo dos professores foram razões citadas por especialistas ouvidos pela Folha para explicar o desempenho dos alunos brasileiros mais ricos no Pisa. Para
Creso Franco, do Departamento de Educação da PUC do Rio, as escolas
brasileiras podem estar ensinando conteúdos defasados em relação a
outros países. Eloísa Ponzio, coordenadora de projetos especiais do Pueri Domus Escolas Associadas, de São Paulo, cita a dificuldade de trabalhar novos conceitos com os professores. "O professor de hoje foi formado em uma escola que dava ênfase nas provas sem se preocupar como processo de leitura e de escrita dos alunos, diz. Hubert
Alquéres, secretário-adjunto da Secretaria da Educação do Estado de São
Paulo no governo Mário Covas, diz que há escolas de elite no Brasil com
padrões de ensino parecidos aos de escolas em países desenvolvidos. ANTÔNIO GOIS DA SUCURSAL DO RIO - Folha de São Paulo - 28/09/2002 Depois de ter sido tratada como se fosse maluquice, a idéia de discutir a criação de um sistema de cotas para estimular a entrada de negros nas universidades públicas brasileiras entrou na agenda de dois candidatos à Presidência. Surgiu um novo obstáculo. Como seria possível dizer quem é e quem não é negro? Alguém já viu um branco dizendo que é negro? Acreditar que o debate das cotas possa ser interditado por conta de uma imprecisão cromática é algo tão inteligente quanto dizer que há poucos negros nas universidades federais porque nunca se descobriu uma maneira de contá-los. Para o registro: a percentagem de negros nas universidades federais brasileiras é menor que o de negros sul-africanos nas escolas superiores ao tempo do apartheid. Elio Gaspari - Folha de São Paulo - 06/10/2002 |