Sob o signo de Cassandra

 

Cassandra, filha de Príamo, o último rei de Tróia, era uma jovem tão bela que por ela o divino Apolo foi tomado de paixão. Num arroubo, o patrono de Delfos lhe ofereceu o dom de prever o futuro; em troca, a princesa lhe daria um filho. Vaidosa e ingênua, Cassandra aceitou o presente, porém logo se recusou a cumprir a promessa Inconformado, o deus do oráculo lançou sobre a jovem a maldição de que ninguém jamais acreditaria em suas predições.

A partir de então, a irmã de Heitor seria atormentada por visões da futura queda de sua cidade, sem que nenhum dos troianos lhe desse ouvidos. Tida por louca, foi encenada em uma torre. De lá somente sairia com Tróia consumida pelas chamas.

Conta a lenda que, em meio ao caos do saque, Cassandra buscou refúgio no templo de Atena. Mas os guerreiros nada respeitavam em sua sede de vingança, e a princesa, suplicante acabou violentada por Ajax Oileu, junto ao altar da deusa de olhos garços. Não seria ainda o fim de sua desdita. No dia seguinte, na partilha dos despojos de guerra, Agamêmnon, o chefe das tropas invasoras, decidiu tomá-la como concubina. Humilhada e reduzida à servidão, Cassandra foi então levada à cidade de Micenas, apenas para prever a sua morte, bem como a do destruidor de Tróia, pelas mãos rancorosas da rainha Clitemnestra. Mais uma vez, ninguém acreditou em sua visões. Eis o lamento da princesa no texto imortal de Esquilo:

"Aiii... as dores que sinto" As terríveis dores do parto da verdadeira profecia. Elas me tomam, me confundem. E outra vez recomeçam. Acrediteis ou não no que vos digo. Pouco importa! Por que com isso me inquietaria? O que há de ser, será e, em breve, quando estiverdes aqui, cheios de pena, direis: As profecias de Cassandra eram a mais pura verdade".

O mito de Cassandra conta-nos da costumeira alienação dos homens diante das forças que os conduzem à ruína. A incapacidade de pensar as conseqüências futuras das circunstâncias presentes se mostra um vicio ainda mais trágico quando elevado à esfera coletiva, em que a gratificação imediata e a miopia ufanista têm precedência sobre os ditames da razão.

Aos que se postam contra a corrente e ousam questionar as verdades fáceis da grandeza troiana o destino parece reservar apenas amargura, sofrimento e solidão. Pois a lucidez de todo profeta repousa sobre um paradoxo: quando suas palavras são escutadas, o futuro nelas previsto termina por dissipar-se; quando são ignoradas, o desfecho funesto aniquila qualquer lembrança do passado. No primeiro caso, o profeta se expõe ao descrédito; no segundo, sua paga é o esquecimento.

O tema da alienação dos troianos ante sua iminente desgraça foi retomado por Virgílio, no segundo livro da "Eneida" . Certa manhã, conta o bardo, os súditos de Príamo encontraram ao acordar o acampamento deserto. No campo de batalha, jazia apenas um enorme cavalo de madeira, suposta oferenda das tropas argivas à deusa Atena. Eufóricos com o aparente fim do conflito, os troianos logo pensaram em trazer para sua cidade o imenso troféu. Tomado de fúria, o sacerdote Laocoonte os aletou: "Míseros cidadãos, que insânia é essa? Credes que os inimigos se ausentaram? Ou julgais vir de gregos dom sem dolo? Teucros, desconfiai desse cavalo! Eu, seja isso o que for, os dânaos temo. Ainda quando dádivas oferecem.

Em gesto desesperado, Laocoonte tomou a lança a um soldado e a cravou no ventre do gigantesco cavalo, por milagre não ferindo os guerreiros dânaos que lá estavam escondidos.

Nesse justo momento, o deus Poseidon lançou sobre Laocoonte e seus filhos duas terríveis serpentes marinhas que os mataram sufocados. Certos de que Laocoonte fora punido por sua impiedade, os cidadãos em festa levaram para dentro da amurada o presente traiçoeiro.

Após uma longa noite de fanfarras e bebedeira, o povo adormeceu. Foi então que Ulisses e seus companheiros de armas saíram de dentro do cavalo e se puseram a destruir a cidade inexpugnável, numa madrugada de horrores e violações.

Tal como os cidadãos de Tróia, que, em sua exaustão, após dez anos de guerra, desdenharam dos alertas de Laocoonte, assim os brasileiros parecem hoje cansados de lutar por um pais melhor encontrando desculpas de toda sorte para não aceitar como corriqueira a série interminável de abusos que vêm sendo perpetrados por nossas classes dirigentes.

Os exemplos da história nos ensinam, contudo, que o apodrecimento da política e a falência das instituições democráticas constituem inexorável prelúdio a todo fenômeno autoritário. Quem estará disposto a escutar tão sinistra profecia?

MARCELO O. DANTAS, 43, formado em ciências econômicas pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), é escritor, roteirista e diplomata de carreira. É chefe da Divisão de Assuntos Multilaterais Culturais do Ministério das Relações Exteriores.

Folha - 18/06/2007 pg A4

 

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