Radiações perigosas
em Barão Geraldo
- julho 2010 -
Tese mostra
correlação entre casos de morte por câncer e localização das
antenas de telefonia celular
Boletim da UFMG
Ana Rita Araújo
|
Diogo Domingues |
|
|
 |
Para evitar
exposição prolongada às radiações
eletromagnéticas, a engenheira Adilza Condessa
Dode usa celular apenas em casos de extrema
necessidade. A precaução decorre de estudos que
desenvolve há cerca de uma década, com o intuito
de descobrir os efeitos físicos, químicos e
biológicos da radiofrequência nos seres vivos.
Em tese defendida na UFMG, no final de março,
Adilza Dode confirma a hipótese de que há
correlação entre os casos de óbito por neoplasia
e a localização de antenas de telefonia celular,
em Belo Horizonte.
Por meio de geoprocessamento, a pesquisadora
constata que a região Centro-Sul da capital
mineira possui a maior concentração de antenas e
a maior taxa de incidência acumulada de mortes
por câncer. A menor taxa está na região do
Barreiro, que também abriga o menor número de
antenas instaladas. |
|
Adilza Dode só usa
celular em casos excepcionais: radiações estão
associadas a vários tipos de neoplasia
|
|
“A poluição
causada pelas radiações eletromagnéticas é o maior problema
ambiental do século 21”, afirma a engenheira, que, em sua
tese, recomenda a adoção, pelo governo brasileiro, do
chamado princípio da precaução, aprovado na Conferência
Rio-92. Segundo tal premissa, enquanto não houver certeza
científica da inexistência de riscos, o lançamento de novo
produto ou tecnologia deve ser acompanhado de medidas
capazes de prever e evitar possíveis danos à saúde e ao meio
ambiente.
Componente
da banca que avaliou a tese de Adilza Dode, o professor
Álvaro Augusto Almeida de Salles, do Departamento de
Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS), destacou que a pesquisa confirma resultados de
estudos realizados na Alemanha e em Israel. “Com esse
trabalho, Belo Horizonte coloca-se em uma importante posição
na área”, comentou.
A pesquisa
Preocupada com a quase inexistência de dados sobre os
efeitos de uma tecnologia que rapidamente se popularizou,
Adilza Condessa Dode defendeu, em 2003, dissertação de
mestrado orientada pela professora Mônica Maria Diniz Leão,
do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG,
em que provou a existência de sobreposição de radiação em
áreas onde há antenas instaladas, o que causa contaminação
eletromagnética.
Para o doutorado, trabalhou com a hipótese de relação entre
mortes por câncer e a proximidade residencial com antenas –
estações radiobase (ERB) – de telefonia celular. Adilza Dode
realizou pesquisa em bancos de dados preexistentes, cruzando
informações sobre óbitos, em Belo Horizonte, de 1996 a 2006,
com informações populacionais fornecidas pelo IBGE.
Entre os 22.543 casos de morte por câncer, no período de
1996 a 2006, a pesquisadora selecionou 4.924, cujos tipos –
próstata, mama, pulmão, rins, fígado, por exemplo – são
reconhecidos na literatura científica como relacionados à
radiação eletromagnética. Para processar essas informações,
ela contou com a co-orientação da professora Waleska
Teixeira Caiaffa, uma das coordenadoras do Observatório de
Saúde Urbana de Belo Horizonte e do Grupo de Pesquisas em
Epidemiologia da Faculdade de Medicina da UFMG.
Na fase seguinte do estudo, Adilza Dode elaborou uma
metodologia inédita, utilizando o geoprocessamento da
cidade, para descobrir a que distância das antenas moravam
as 4.924 pessoas que morreram no período. “A até 500 metros
de distância das antenas, encontrei 81,37% dos casos de
óbitos por neoplasias”, conta a pesquisadora, professora do
Centro Universitário Izabela Hendrix e da Faculdade de
Ciências Médicas de Minas Gerais.
Ela comenta que, nos últimos anos, houve crescimento de
casos de câncer de encéfalo no país, como atestam dados do
Instituto Nacional de Câncer (Inca), e aumento no uso da
telefonia celular. “Não posso afirmar que esta é a causa dos
óbitos; mas qual é o fator novo nesse período? O fator
ambiental que veio a público é a telefonia celular, não há
outro”, analisa. Segundo ela, a literatura científica sugere
a quem tem câncer e faz quimioterapia que evite exposição a
campos eletromagnéticos.
Níveis seguros?
Há níveis seguros de radiação para a saúde humana? “Esse é
exatamente o problema: até agora, ninguém sabe quais os
limites de uso inócuos à saúde”, explica Adilza Dode, ao
destacar que os padrões permitidos no Brasil são os mesmos
adotados pela Comissão Internacional de Proteção Contra
Radiações Não Ionizantes (Icnirp), normatizados em
legislação federal de maio de 2009. Para a pesquisadora,
esses padrões são inadequados. “Eles foram redigidos com o
olhar da tecnologia, da eficiência e da redução de custos, e
não com base em estudos epidemiológicos”, assegura.
Segundo o professor Álvaro Augusto Almeida de Salles, da
UFRGS, também não existem pesquisas epidemiológicas que
demonstrem os efeitos das ondas emitidas por equipamentos de
wireless, wi-fi e bluetooth, que irradiam em níveis mais
baixos, mas contínuos. “Somos cobaias de tecnologias que
ainda não se mostraram inócuas”, sentencia.
Adilza Dode informa que os campos eletromagnéticos
interferem, também, em equipamentos biomédicos. “Por isso, é
necessário desligar o celular ao entrar em hospitais, e não
se deve, de forma alguma, instalar ERB em área hospitalar”,
adverte, ao lembrar que mesmo as pessoas que não usam
celular recebem radiação emitida, de forma contínua, pelas
antenas.
Ela informa que países como Suíça, Itália, Rússia e China
adotaram padrões bem mais baixos que os permitidos pela
Icnirp. E no Brasil, o município de Porto Alegre editou lei
que define níveis de emissões de radiações similares aos da
Suíça.
Em sua tese, Adilza citou diversos estudos internacionais
que procuram compreender os efeitos dos campos
eletromagnéticos. Um deles, o projeto Reflex, financiado
pela União Europeia, realizado em 2004 por 12 laboratórios
especializados em sete países, afirma que a radiação
eletromagnética emitida por telefones celulares pode afetar
células humanas e causar danos ao DNA, ao alterar a função
de certos genes, ativando-os ou desativando-os. Outro
estudo, realizado em Naila (Alemanha), constatou a
incidência três vezes maior de câncer em pessoas que viveram
em um raio de até 400 metros das antenas de telefonia
celular.
Em Netanya, em Israel, outro estudo mostrou o aumento de
4,15 vezes na incidência de câncer para os moradores que
residiam dentro de um raio de até 350 metros das antenas de
telefonia celular. Há, ainda, pesquisas que apontam riscos
maiores para crianças, devido às especificidades de seu
organismo. “A penetração das radiações eletromagnéticas no
cérebro das crianças é muito maior que no dos adultos”,
destaca Adilza Dode, que já se prepara para começar nova
etapa de estudos. Seu objetivo agora é medir os níveis de
exposição humana às radiações eletromagnéticas nas
residências das pessoas diagnosticadas com câncer.
Recomendações
“Não somos contra a telefonia celular, mas queremos que o
Brasil adote o princípio da precaução, até que novas
descobertas científicas sejam reconhecidas como critério
para estabelecer ou modificar padrões de exposição humana à
radiação não ionizante”, diz a pesquisadora
Em um capítulo de sua tese, ela lista uma série de
recomendações. Entre elas, a de que o Brasil adote os
limites já seguidos por países como a Suíça. Sugere, ainda,
que o governo não permita transmissão de sinal de
tecnologias sem fio para creches, escolas, casas de repouso,
residências e hospitais; crie infraestrutura para medir e
monitorar os campos eletromagnéticos provenientes das
estações de telecomunicação e desestimule ou proíba o uso de
celulares por crianças e pré-adolescentes.
Às indústrias, a tese recomenda a produção de telefones
celulares com radiação no sentido oposto à cabeça do
usuário, o investimento em pesquisa para descobrir limites
seguros e a redução dos níveis de radiação emitidos pelas
antenas. Aos usuários, Adilza sugere que não andem com
celulares junto ao corpo; adotem a prática de envio de
mensagens, evitando, ao máximo, sua proximidade ao ouvido; e
afastem-se de outras pessoas ao recorrer ao aparelho. A
autora aconselha, ainda, que cada prédio tenha área
reservada para uso de celular, e que os moradores não
aceitem a instalação de antenas. “Há uma crença segundo a
qual o prédio onde se encontra uma antena de celular não
recebe radiação. Isso foi desmentido por pesquisas
recentes”, adverte a pesquisadora.
Tese: Mortalidade por neoplasias e telefonia celular em Belo
Horizonte, Minas Gerais
Autora: Adilza Condessa Dode
Defesa: 26 de março de 2010,
junto ao Programa de Doutorado
em Saneamento, Meio Ambiente,
e Recursos Hídricos (Desa)
Orientadora: Mônica Maria Diniz Leão, professora do
Departamento
de Engenharia Sanitária e Ambiental,
da Escola de Engenharia da UFMG
Co-orientadora: Waleska Teixeira Caiaffa, professora do
Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade
de Medicina da UFMG
Leia mais no site
www.mreengenharia.com.br
Saiba
mais sobre a potência emitida nas torres de transmissão em
Barão Geraldo:
Torre de
celular vai emitir mais que o permitido (3µW/cm2) de
densidade de potência em Escola de Barão -
julho
2008