Deputado é preso por compra de votos - por vender não


Compras e vendas

Janio de Freitas - 24/10/02

A PRISÃO do deputado eleito Ronivon Santiago põe à mostra mais uma originalidade da democracia à brasileira. 

Pelo sistema jurídico praticado
-não o que está na legislação, mas o que está verdadeiramente em vigor-, a compra de voto de eleitor é muito mais grave do que a compra de voto de deputado. Ainda que pelo voto do eleitor sejam pagos R$100, como estão dizendo com evidente exagero para o "mercado" do Acre, e o voto de deputado custasse o equivalente, quando seu preço foi esclarecido, a US$200 mil.

Ronivon Santiago é imprudente. Sua especialidade não é a compra, é a venda -franca, documentada com a própria voz como Fernando Rodrigues demonstrou. Tudo o que Ronivon quer, agora, é recuperar o mandato perdido, não por ter recebido os US$ 200 mil, mas por ter confessado. Ou seja, queria a reeleição. Logo, devia encomendar a tarefa de comprar votos aos que o compraram para obter a reeleição de presidente. Eles sabem como comprar até parlamentares e assegurar-se a impunidade. Com direito, ainda, a ler nos jornais que o presidente e o governo foram "admiráveis" no plano ético.


Cadastrador oferecia R$ 100 aos eleitores

Em 4 de outubro, a Folha revelou esquema de compra de votos da campanha à reeleição do deputado federal Ronivon Santiago (PPB-AC). "Cadastradores" prometiam R$ 100 a quem votasse no candidato.

Foi iniciada uma Investigação Judicial Eleitoral, que pediu a cassação da candidatura e a inelegibilidade de Ronivon, terceiro candidato à Câmara mais bem votado do Acre. Ele sofre também ação penal por corrupção eleitoral, punível com até quatro anos de prisão.

Em 8 de outubro, cerca de 300 pessoas fizeram protesto diante da delegacia de Cruzeiro do Sul (700km de Rio Branco). O grupo pedia a ajuda da polícia para cobrar o pagamento dos votos dados a Ronivon.

Em 11 de outubro, o deputado teve sua prisão preventiva decretada. Na madrugada do mesmo dia, o político foi visto em vôo de Rio Branco a Brasília. Ou seja: quando o mandado foi emitido, o Ronivon já estava fora do Estado.

A Procuradoria Geral da República foi contatada e a Procuradoria do Acre solicitou que a Polícia Federal monitorasse o político à distância, durante sua estadia em Brasilia.

Juri Dantas - sucursal de brasília - Folha - 24/10/02


 

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