APRENDIZES
DA FOTOGRAFIA
Paulo
Humberto Porto Borges*
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Um documento
jesuítico datado de 1614, durante a fundação das reduções no
Paraguai, afirma que os Guarani desconfiavam daqueles homens que,
estranhamente, passavam horas a fio entretidos com seus livros e
bíblias - “Sembraron por todo
el Paraná - escreve o jesuíta - que
éramos espías y sacerdotes falsos y que en los libros traímos la
muerte”[5]. E, ainda
segundo Bartomeu Meliá, “las
proprias imágenes pintadas eran también miradas con sospecha como si
en ellas hubiera una indebida fijacíon de la realidad ya muerte[6]”. Os Yanomami, assim
como outros povos de forte tradição oral, não admitem rememorar as
lembranças de um ente perdido, seja através das palavras, seja através
da pronúncia de seu nome, ou mesmo sua perpetuação imagética através
de fotografias. Esse tipo de recordação torna-se uma agressão violentíssima
e perigosa, tanto para os vivos como para a alma do morto. Os Yanomami
ainda não construíram uma palavra específica para “fotografia”,
mas, a palavra escrita recebeu o sugestivo nome de “kanasi”
: “los Yanomami significan la
letra con la palabra kanasi,
que quiere decir ‘vestigio, cadáver, restos, señal e indicio’. De hecho la
escritura podrá ser todo esto: el cadáver de una palabra muerta; los
restos y desperdicios de vocablos vacíos, pero también el vestigio de
la memoria, el indicio de vida futura, una señal de lucha”[7]. Os
Guarani a nomearam de forma distinta, batizando a palavra escrita como
kuatia - ainda segundo Meliá: “los Guaraníes llamaron kutia a la letra, voz con que significaba también el dibujo e
pintura con que se adorna un hombre: ava
ikutia para, y que adornando el papel se vuelve escritura. Llamaron
los Guaraníes-Chiriguanos al papel tüpa
pier - piel divina o ‘hechicera’” [8],
onde além de atribuírem uma espécie de aura mágica a palavra
escrita, a identificam com o desenho e a pintura corporal, na qual, a
imagem mais que a escrita, possui um contorno feiticeiro. Essas reações
frente à imagem demostram-nos todo o manancial de significados que elas
carregam para um possível leitor, seja ele indígena ou não.
A imagem fotográfica
ou videográfica me emociona na medida que diz algo a minha história e,
nesse sentido, minha decodificação é sempre historicizada,
determinada por uma dada realidade material, não é uma relação
arbitrária, mas mediada por critérios objetivos. Quem faz a foto ou a
imagem, a constrói a partir de um dado contexto cultural, a partir de
sua ótica e leitura de mundo; quem lê a imagem, a lê através de seus
códigos culturais específicos, também construídos a partir de seu
percurso histórico e aquele que é fotografado, se deixa fotografar a
partir de uma dada representação, que também é historicizada. A
subjetividade, qualquer que seja, produz-se dentro de processos históricos
e não pode ser, portanto, entendida como algo de fora, naturalmente
emanada de sujeitos supra-históricos, pois, “a subjetividade que se
materializa nas decisões históricas é ela própria um produto histórico-social”
(Frigotto, 1999: 30). Pensar o homem, assim como seu produto, fora
destas relações materiais e históricas é inscrever-se em uma concepção
idealista de mundo, pois não existe concepção, conhecimento ou desejo
que se defina em outra esfera que não a produção material da existência,
determinada e delimitada pelas relações sociais (Frigotto, 1999:68). Não é possível
entendermos a imagem fotográfica como uma mera percepção sensorial
alijando-a de sua própria historicidade, inclusive, e é bom que se
destaque, a própria emoção não deixa de ser um produto de nossa vivência
e práxis, “e mesmo as formações nebulosas no cérebro dos homens são
sublimações necessárias do seu processo de vida material,
empiricamente constatável e ligado a pressupostos materiais”, e estes
são os critérios (Marx, 1984: 37). Ao contrário do
que possa parecer, a fotografia não possui uma linguagem polissêmica
ao sabor da arbitrariedade de quem lê. A leitura e a decodificação da
fotografia se dá a partir da vivência e historicidade do leitor, que,
apesar de múltiplas e variadas, pertencem e são determinadas por uma
determinada época e tradição. Quando
Walter Benjamin analisa e descreve um retrato infantil de Kafka, detêm-se
no que ele chama de “olhos incomensuravelmente tristes” do escritor.
Talvez, um outro observador que não conhecesse a criança que
posteriormente revelaria-se o autor de A
Metamorfose, não percebesse tamanha tristeza no olhar daquele
garoto tímido.[9]
A fotografia, como qualquer reprodução do real, é apenas uma faceta
da realidade que envolve o fotógrafo, no caso, o autor da foto. O fotógrafo,
de acordo com sua visão de mundo, seleciona os componentes que
participarão do quadro a ser registrado. A escritora
Marguerite Duras descreve uma fotografia de sua mãe e apresenta-nos uma
gama de significados e perguntas que são despertadas e elaboradas por
este mesmo registro fotográfico. Indagações visíveis apenas para
quem reconhece na mulher que “comprou o chapéu cor-de-rosa de abas caídas
e larga fita preta” a figura de sua mãe[10]. Aquela que
comprou o chapéu cor-de-rosa de abas caídas e larga fita preta é ela,
a mulher de certa fotografia, é a minha mãe. Reconheço-a melhor ali
do que em fotos mais recentes. Trata-se do pátio de uma casa no Pequeno
Lago de Hanói. Estamos juntos, ela e nós, seus filhos. Tenho quatro
anos. Minha mãe está no centro da fotografia. Lembro-me do seu porte
desgracioso, dos lábios que não sorriam, do modo como esperava que
tirassem logo a fotografia. Pelos traços cansados, uma certa desordem
de postura, a sonolência do olhar, sei que fazia calor, que ela estava
extenuada, que se aborrecia. Mas é o modo como estamos vestidos, nós,
seus filhos, como infelizes, que reencontro um certo estado de espírito
que às vezes dominava a minha mãe e do qual, já naquele tempo,
naquela idade que tínhamos na foto, sabíamos perceber os sinais
precursores, aquela atitude, exatamente, que assumia, de repente, de não
querer mais nos dar banho, nos vestir, nem mesmo nos alimentar. Esse
grande desânimo de viver minha mãe tinha-o todos os dias. Às vezes
durava, às vezes desaparecia de noite. Tive sorte de ter uma mãe
desesperada de um desespero tão puro que até mesmo a felicidade de
viver, por mais viva que fosse, às vezes não podia afastá-lo
totalmente. O que sempre vou ignorar são os fatos concretos que a
levavam cada dia a nos abandonar à própria sorte. Naquele dia talvez
tivesse sido aquela tolice, aquela casa que ela acabava da comprar - a
da fotografia -, da qual não precisávamos, e quando meu pai já estava
doente, tão perto da morte, uma questão de meses. Ou talvez acabasse
de saber que também estava doente, com a doença que o matou? As datas
coincidem. O que ignoro, e ela também devia ignorar, é a natureza das
evidências que atravessavam e que lhe provocavam esse desânimo. Seria
a morte de meu pai, já presente, ou a morte do dia? O questionamento
daquele casamento? Do marido? Dos filhos? Ou a dúvida mais generalizada
de tudo aquilo?[11]
Qualquer outro
espectador poderia, através da moldura
histórica contida nesta fotografia, descobrir elementos da antiga
Indochina, ou mesmo, com um pouco de sorte, reconhecer a mãe
da célebre escritora que, posteriormente, se tornaria Marguerite
Duras. Porém, apenas a própria escritora, a partir de sua
historicidade, poderia construir tantas indagações.
A maneira como
estes significados vão sendo elaborados e decodificados, nos permitem
estabelecer algumas relações com outros dados complementares e, dessa
forma, irmos construindo novas reflexões. O fotógrafo
Sebastião Salgado chega a comparar as imagens fotográficas com as
lembranças de nossas experiências vividas - “Você começa a
fotografar quando nasce: suas lembranças, as histórias de sua infância.
Você fotografa com o aparato das idéias que tem na cabeça. Muitos
dizem que é ideologia, eu digo que são idéias. A fotografia é um
meio fabuloso. Ela pode ir para uma revista, para um museu. Eu faço as
fotos, mas elas não me pertencem[14][14].
Salgado entende fotografia documental como toda a imagem que possui ou
traz em si, de maneira explícita, aspectos de uma realidade histórica.
Toda e qualquer fotografia quando utilizada como documento torna-se histórica,
ou seja, toda imagem possui uma historicidade potencial, que, de acordo
com a pergunta formulada, aflora com mais força ou não.
[1][1] Como o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP que, após longos anos de ociosidade, reativou seu laboratório fotográfico e, freqüentemente, vem oferecendo cursos de fotografia aos alunos de graduação e pós. [2][2] FELDMAM-BIANCO, Bela. Introdução. in FELDMAM-BIANCO, Bela. LEITE, Miriam L. Moreira. Desafios da Imagem. Campinas: Papirus, 1998, p. 11. [5][5] Apud, in. MELIÁ, Bartomeu. Oralidad y Escritura en Sociedades Indígena. In Seminário Internacional: el aprendizage de lenguas en poblaciones indígenas: el caso de los idiomas indígenas. Iquique, Chile. 04 -08 de novembro de 1996. [6][6] Idem , op. cit. [7][7] Idem, op. cit. [8][8].Idem, op. cit. [9][9] BENJAMIN, Walter: Magia e Técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1996, p.144. [12][12] “...veja só, naquela exposição que fiz no MASP, três anos atrás, havia 250 fotografias com 1/250 de segundo. Na exposição inteira você só tem um segundo de fotografia. E isso é fabuloso, que naquele 1/250 você tem um produto final. É uma forma tão poderosa de comunicação que alguns críticos tem a tendência de considerar uma obra criativa somente quando você ficou três meses para realizar. Ao passo que a fotografia é uma outra criatividade tão fantástica, tão sutil que naquela fração de segundo você consegue passar uma expressão , se comunicou. Em nenhuma outra linguagem eu poderia me expressar melhor”. SALGADO. Sebastião. Salgado combate o egoísmo com imagens. in O Estado de São Paulo: São Paulo. 08.06.96. [13][13] Conf. ABRAMO, Cláudio. A linguagem dos fatos. São Paulo: Folha de São Paulo, 20.11.1984, apud in Paparazzi, n. 04, 1996, p.13. [14][14] SALGADO, Sebastião in REVISTA IRIS FOTO. Entrevista, número 472. |