Da História Paulo Humberto Porto Borges Em março de 1997
aceitei o convite feito pelos educadores
da Escola Indígena Guarani Kyringue Yvotyty da aldeia de Sapukaí para integrar a
sua equipe de assessoria não-índia - formada por Domingos
Barros Nobre do Centro de Educação Comunitária/CEDAC e Eunice Dias do Conselho
Indigenista Missionário/CIMI - a fim de colaborar na prática e ensino de História
visando uma educação escolar intercultural (posteriormente, este trabalho transformou-s
na dissertação de mestrado "Ymã, ano mil e
quinhentos: escolarização e historicidade Guarani Mbya na aldeia de Sapukaí",
defendida na Faculdade de Educação da Unicamp). Na ocasião, os educadores Guarani
argumentavam que gostariam de "ensinar a verdadeira história Guarani, a história
dos antigos", em contraposição a história narrada e confirmada pelos mais diversos
livros didáticos que lhe caiam nas mãos. Nestes, no mais das vezes, pouca ou nenhuma
referência se fazia a temática indígena e, quando havia, frequentemente não era muito
específica e sequer se fazia a tão necessária diferenciação entre os povos indígenas
do Brasil, caracterizando os mais de 180 povos, cada qual com seus costumes e tradição,
simplesmente como índios.
É preciso ter claro que quando estes guarani afirmam que gostariam de ter uma "história bem ensinada", eles estão se referindo a uma História que reforce e reconheça seu projeto étnico-cultural. Não podemos esquecer que o ensino e o trato com a História sempre esteve intimamente ligado a identidade de um povo. Uma das principais funções da História e do saber histórico é contribuir com a inteligibilidade do passado e dos vínculos entre este e o presente, o que, sem dúvida, termina por construir e consolidar o ethos de um determinado grupo sob um determinado prisma. Pois se a conquista da América é vista com um acontecimento feliz para a história ocidental, muito provavelmente, não o é para uma possível historiografia indígena. Segundo os educadores indígenas da Escola
Kyringue
Yvotyty, o ensino de História a ser ministrado em sala de aula deveria abarcar a
"História do Povo Guarani" e a "História dos Povos Indígenas" como
um todo. No entanto, além dos chamados "documentos oficiais" produzidos pelos
conquistadores, existem poucas evidências materiais que tenham sido deixadas pelas a) a dificuldade que alguns professores e lideranças Guarani possuem em relação ao domínio dos códigos da leitura e escrita,
Um dos principais frutos deste pretenso diálogo entre a memória guaranítica e a documentação juruá produzida sobre este povo, se deu na elaboração do livro didático de História Nhaneretarã Kuery Vae Kuery Nhanenãnbuaa ("Nosso Povo, Nosso Passado, Nossa Memória") no qual utilizamos relatos Guarani a partir das gravuras de J. B. Debret e das xilogravuras pertencentes ao livro "Duas Viagens ao Brasil" de Hans Staden. Em sua maioria são relatos que enfatizam a conquista, registrando o que seria uma visão indígena dos quinhentos anos da América e o trauma que representou a chegada dos soldados europeus. Como no relato do Guarani Valdo Rodrigues da Silva que ao interpretar a clássica prancha de Debret Soldados índios de Curitiba escoltando selvagens chegou a criar diálogos entre os personagens. Uma produção que beira a literatura, tal é sua imaginação, permitindo e abordando vários viéses históricos como a conquista, as bandeiras, a escravidão indígena, o papel das lideranças tradicionais e outros.
Ou mesmo no texto do professor Guarani Algemiro da Silva em relação as terríveis consequências da conquista para os povos indígenas, aludindo aos constantes deslocamentos e rotas de fuga:
Estas várias e distintas interpretações históricas produzidas pelos professores Guarani em busca de uma "história bem ensinada" - mas não no sentido de uma "história verdadeira", e sim, em relação a uma história pautada na tradição e memória Guarani - vem apontando uma versão bem distinta das pretensas comemorações que a mídia nacional vem insistindo em organizar. E este contraponto, justamente no momento em que repensamos termos como "descobrimento", não deixa de ter seu significado. Neste trabalho, a imagem - tanto a imagem fotográfica quanto aos documentos imagéticos utilizados e reconstruídos pelos professores Guarani através de sua tradição e narrativas - são formas de buscar nos fragmentos do passado uma memória que salvaguarde a tradição e coloque a salvo os inúmeros mortos derrotados pelo inimigo ao longo destes quinhentos anos de conquista. Seja através da rememoração e consolidação de uma visão indígena sobre os 500 anos de conquista, seja através da construção de um acervo fotográfico sobre a vivência e resistência Guarani. |