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OS GUARANI
A
grande nação Guarani, que à época da conquista conglomerava diversos
povos, teve seu projeto histórico interrompido e subordinado à conquista espanhola. Em
1537 (data da chegada dos conquistadores espanhóis a Assunción), parte desses povos
Guarani viram-se frente a frente com os juruá e, consequentemente, com todo o
projeto colonial da coroa espanhola, com missionários sedentos de almas e soldados
venturosos em busca de glória e riqueza.
Parte destes índios foi incorporada
pelas engrenagens da imensa e complexa máquina colonial nas inúmeras encomiendas(1) espanholas, sofrendo um terrível e imediato ocaso demográfico. Segundo
alguns estudos, desses grupos ecomiendados não sobrou mais do que 10% da
população original, dizimada tanto pela intensidade do trabalho forçado, quanto pelas
inúmeras doenças trazidas pelos conquistadores. Posteriormente, estes índios,
descaracterizados, diluíram-se junto as populações invasoras européias. O antropólogo
Darcy Ribeiro aponta o mesmo processo na conquista da América Portuguesa:
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"Milhares de índios foram incorporados por essa via à sociedade
colonial. Incorporados não para se integraram nela na qualidade de membros, mas para
serem desgastados até a morte, servindo como bestas de carga a quem deles se apropriava.
Assim foi ao longo dos séculos, uma vez que cada frente de expansão que se abria sobre
uma área nova, deparando lá com tribos arredias, fazia delas imediatamente um manancial
de trabalhadores cativos e de mulheres capturadas para o trabalho agrícola, para a
gestação de crianças e para o cativeiro doméstico".(2) |
Um segundo grupo, que podemos chamar de índios missioneros, encontrou refúgio
da sanha colonialista nas reduções dos missionários jesuítas espanhóis e portugueses
- "el hecho es que ha difundido el buen olro de los nuestros entre los habitantes de
Guarambaré, y esto mismo saca a los indios de sus esconderijos, adonde se habían
refugiado por miedo de los españoles, animándoles a ponerse a salvo bajo nuestro
amparo"(3)- e, durante um certo tempo, apesar dos enormes
esforços de catequização por parte dos religiosos, conseguiu, ainda que de forma
camuflada, reproduzir-se culturalmente.
Com o fim das reduções e a conseqüente
expulsão dos jesuítas das colônias ibéricas, esses Guarani das Missões foram
vitimados por freqüentes e violentas expedições de apresamento por parte dos
bandeirantes paulistas e pela cobiça dos encomenderos espanhóis. Os que,
posteriormente, sobreviveram a este genocídio não retornaram às matas; ao contrário,
como muitos deles haviam aprendido ofícios diversos e haviam tornado-se artesãos,
marceneiros, carpinteiros e músicos, dirigiram-se aos grandes centros urbanos da época,
estabelecendo-se nas cercanias de Montevidéu, Buenos Aires e Santa Fé.
Um terceiro grupo
Guarani permaneceu fora do alcance das garras coloniais, escondendo-se nas densas
florestas paraguaias.
"Durante la época
colonial, a lo largo del siglo XIX y hasta la actualidade, hubo grupos
guaraní que conseguieron
sobrevivir libres del sistema colonial. Selvas relativamente alejadas de
los centros de población colonial, poco o nada transitadas por los
"civilizados", los mantuvieron lo suficientemente aislados para
que pudieron perpetuar su ‘modo de ser’ tradicional. Considerados
apenas como
sobreviventes de un mundo ya superado, fueron denominados
genéricamente ‘Kaygua’ y ‘montaraces’. Apenas conocidos, sólo
fueron raramente visitados por algún que otro viajante en el siglo XIX y
pudieron pasar tranquilamente hasta el siglo XX sin especiales
interferencias exteriores".(4)
Ainda segundo Bartomeu Meliá, os atuais Guarani
Mbya, Ñandeva e Kaiowá descendem deste terceiro grupo.
Certamente, estas divisões não são mecânicas e, ao que tudo indica,
mesmo esses mais grupos arredios mantinham um certo contato entre si, como afirmam os
escritos do capitão-de-fragata D. Juan Francisco de Aguirre, que em 1777 travou contato
com diversos grupos destes índios "...salem
por parcialidades a tratar y aún asalariarse con los españoles de los benefícios de la
hierba, particularmente por hachas, machetes, cuchillos. Venden frutos de chacareo como
batatas, mandioca y maíz y trabajan en la faena de barcos, o ranchos".(5)
As primeiras levas
Guarani que chegaram a São Paulo remontam a meados do século XIX. Em
1835, temos as primeiras notícias de grupos de Guarani-Ñandeva que aportaram na região
de Iguape, onde entraram em confronto com a comunidade não-índia local. Segundo relatos
de Nimuendaju, esse grupo oriundo do Paraguai vinha em peregrinação messiânica rumo à
"terra-sem-males", paraíso mítico Guarani localizado ao leste, ao sol
nascente.
"Os primeiros que abandonaram a sua
pátria, migrando para
o leste foram os vizinhos meridionais dos Apapocúva: a horda dos Tañyguá, sob a
liderança do pajé chefe Ñanderyquyní, que era temido feiticeiro. Subiram lentamente
pela margem direita do Paraná, atravessando a região dos Apapocúva, até chegar à dos
Oguauíva, onde seu guia morreu. Seu sucessor, Ñanderuí, atravessou com a horda do
Paraná - sem canoas, como conta a lenda - , pouco abaixo da foz do Ivahy, subindo então
pela margem esquerda deste rio até a região de Villa Rica, onde cruzando o Ivahy,
passou-se para o Tibagy, que atravessou na região de Morro Agudos. Rumando sempre em
direção ao leste, atravessou com seu grupo o rio das Cinzas e o Itararé até se
deparar, finalmente com os povoados de Paranapitinga e Pescaria na cidade de Itapetinga,
cujos primeiros colonos nada melhor souberam fazer que arrastar os recém-chegados a
escravidão. Eles porém, conseguiram fugir, perseverando tenazmente em seu projeto
original, não de volta para o oeste, mas para o sul, em direção ao mar. Escondidos nos
ermos das montanhas da Serra dos Itatins fixaram-se então, a fim de se prepararem para a
viagem milagrosa através do mar à terra onde não mais se morre.
Os antigos habitantes do
litoral, os Karijó, já então estavam há
muito extintos; quando se espalhou pelas colônias da região da Ribeira a notícia da
chegada de novos índios, empreendeu-se imediatamente uma expedição contra estes. Os Tañyguá, no
entanto, estavam de sobreaviso. Sob o comando de Avuçu, seu melhor guerreiro, fizeram
muito habilmente uma emboscada a seus perseguidores, perto da desembocadura do rio do
Peixe no Itariry, infligindo-lhes perdas que os rechaçaram. Afinal, conseguiu-se de forma
amigável o que com força não se alcançara: por intermédio de um índio conhecido como
Capitão Guaçu, os brasileiros estabeleceram relações amistosas com os Tañyguá, e
estes receberam em 1837, do Governo, uma légua quadrada [légua em quadra ?] de terra do
rio do Peixe e no rio Itariry".(6)
Os Guarani Mbya
começaram a chegar, ao que se sabe, a partir do início do século XX. Em 1921,
Nimuendaju, na época funcionário da antigo SPI, teve a ventura de acompanhar de perto a
migração de um pequeno grupo Mbya rumo ao mar. Esta fantástica experiência não
modificou apenas o modo desse antropólogo alemão encarar a sociedade Guarani, como a
partir de então, iria influenciar de maneira decisiva, o modo como a maioria dos
antropólogos passaria a ver os Guarani.
Ao inteirar-se de que meia dúzia de índios guarani encontrava-se
acampada a 13 km a oeste de São Paulo, às margens do rio Tietê, Nimuendaju, temeu que a
imprensa fizesse um escarcéu sobre o assunto e dirigiu-se imediatamente ao pequeno
acampamento:
"(...) em hipótese nenhuma poder-se-ia deixá-los
entregues à sua sorte. Não só porque esta teria sido bastante triste, com também
porque a imprensa se apropriaria do caso, exagerando-o e o utilizando para todos os fins
propagandísticos possíveis".(7)
Nimuendaju encontrou-os
extenuados, em terrível estado de miséria. Naquela mesma noite uma criança morreu,
aumentando ainda mais seus temores em relação à imprensa - "eles queriam
atravessar o mar em direção ao leste; tamanha era sua confiança no sucesso deste plano
que quase levou-me ao desespero."
Após
tentar, reiteradas vezes fazê-los mudar de
idéia, Nimuendaju rendeu-se à persistência daqueles índios e resolveu acompanhá-los
até o fim daquela jornada.
Efetivamente, após três dias de
caminhada, eles
chegaram à Praia Grande, litoral sul de São Paulo. Era noite, estava chovendo e,
naturalmente, os índios não enxergaram o mar. Após essa noite chuvosa, o dia seguinte
raiou límpido. E o mar pôde mostrar-se em todo seu esplendor para aquele pequeno grupo.
Um espetáculo que aqueles guarani nunca haviam visto, que frustrou de modo brutal todas
as suas expectativas de alcançarem a "terra-sem-males" através do mar. Segundo
Nimuendaju:
"Visivelmente, toda a situação lhes parecia extremamente
lúgubre. Eles haviam aparentemente, imaginado o mar de forma totalmente diversa e,
sobretudo, não tão terrivelmente grande. Sua confiança havia sofrido um golpe
violento".(8)
Nesse momento de seu
livro,
Nimeundaju elabora a pergunta que modificaria toda a literatura produzida a partir de
então sobre os Guarani: não será a causa das migrações dos grupos tupi-guarani e,
conseqüentemente, dos Guarani, orientada por um viés religioso e não por seu caráter
guerreiro?
"(...) poderá a marcante expansão daquelas hordas ao
longo do mar, observada no início do século XVI, ser atribuída a causas bélicas, como
se costuma supor, ou a motivos religiosos?"(9)
Não
seria a busca da "terra-sem-mal" o grande impulsionador das caminhadas Tupi?
Segundo Bartomeu
Meliá, com esta questão
Nimuendaju lança a pedra fundamental que iria alicerçar todos os estudos acerca dos
Guarani: a busca da "terra-sem-males" como fator essencial para se entender o
Guarani e sua visão mundo. Entretanto, nesse momento, também ocorre uma
"Mbyalização" do Guarani. Segundo Meliá, Nimuendaju possivelmente não sabia
que se tratava de um grupo de Guarani Mbya. E esta experiência de meia dúzia de índios
Mbya, foi ampliada conceitualmente para todos os outros subgrupos Guarani, influenciando
todas as outras interpretações, estudos e discussões acerca da expansão Guarani, seja
ele Mbya, Kaiowá ou Ñandeva.
"Mas por que estariam migrando? Na interpretação de
Susnik, seria porque seu habitat original no representaba ventajas potenciales para
el cultivo por rozado, de donde las primeiras tendências del ogwata expansivo
hacia el sureste rumbo a los rios Amaby e Yguatemi. Para Nimuendaju, estariam em
busca da Terra sem Mal, idéia também apoiada por Meliá, por considerar que o
Chaco, a
ser atravessado pelos Itatim, não apresentava características próprias das terras
buscadas pelos Guarani, na sua expansão pelas bacias do Paraguai, Paraná e Uruguai.
Segundo pesquisas mais recentes, a expansão guarani em direção a estas bacias estava
ligada ao aumento demográfico e consequente necessidade de novos espaços ao manejo
agro-florestal que adquiriam e que permitia dominar e incorporar novas áreas".(10)
Dentre os três subgrupos Guarani já
citados, o
Mbya é o que vem tendo maiores reservas com relação à educação formal,
principalmente devido à sua profunda religiosidade e apego à tradição. Este subgrupo herdou todo o
misticismo Guarani em suas rezas e seu modo de encarar o mundo não-índio, utilizando
esta característica cultural como forma e estratégia de resistência a um mundo que
considera ñeychyrõgui arauka i anguãema ("terrível e imperfeito").
O
rezador guarani, Ñanderui, nos traz a imagem criada por
Bosch em uma de suas pinturas mais significativas, As Tentações de Santo Antão,
na qual o homem santo encontra-se refugiado em seu oratório cercado por um mundo
pecaminoso e imperfeito. Assim como o Santo Antão de Bosch, o rezador Mbya refugia-se em
seu tekohá em busca de expiação, isolando-se de todo o contato com o mundo
exterior, isto é, exterior à tradição Guarani, ao ñande reko. Somente através
da rememoração (no sentido mítico de retornar a pureza original, ab origine)
obtida pela reza, é que o Mbya talvez acumule forças suficientes para empreender a
grande viagem a Yvy Maraney: a terra sem mal, e fugir deste mundo decadente que já
aponta sinais que anunciam a "exaustão da terra": o fim apocalíptico.
"Quando os pajés, em seus
sonhos, vão ter com Ñanderuvuçu,
ouvem muitas vezes como a terra lhe implora: devorei cadáveres demais, estou farta
e cansada, ponha um fim a isto, meu pai. E assim também clama a água ao criador,
para que a deixe descansar; e assim também as árvores, que fornecem a lenha e o material
de construção; e assim todo o resto da natureza. Diariamente se espera que Ñanderuvuçu
atenda as súplicas da sua criação."(11)
A busca da yvy maraney é uma
experiência religiosa cotidiana e presente em todos os subgrupos Guarani, diferindo-se na
expectativa e na forma em que se dá esta procura. Porém, se a cautela aconselha a não
relacionarmos indistintamente a migração Guarani com religiosidade Guarani; em relação
ao Mbya pode-se afirmar o contrário, que migrações e deslocamentos geográficos
encontram-se profundamente marcados por seu caráter mítico, como na recente ocupação
da Ilha do Cardoso, litoral sul de São Paulo, quando, em meados de 1994, cerca de 40
guarani oriundos do Rio Grande do Sul chegaram à ilha orientados por líderes espirituais
em peregrinação messiânica.
(Texto extraído da dissertação
"Ymã, ano mil e quinhentos: escolarização e historicidade Guarani na Aldeia de
Sapukaí" - Faculdade de Educação - Unicamp)
(1)
"Índio encomendado era o índio entregue ao espanhol para fins de conversão e
catequese. Originada na Espanha medieval e no repartimento das populações
mouras entre os conquistadores espanhóis, na colonização americana a encomienda
se desenvolveu como uma relação de proteção e de dependência entre grupos de índios
e um patrono, ou colonizador, que tinha a obrigação de doutriná-lo, em troca da
utilização de seu trabalho. Na realidade a 'encomienda' constitui uma
instituição capital no desenvolvimento da colonização de mão-de-obra indígena em
proveito do europeu e acobertando a escravidão indígena, pois deixava a salvo a
liberdade jurídica do índio, resguardando a suprema soberania da Coroa espanhola sobre
novos súditos". DE ALMEIDA, Rubem Ferreira Thomaz. Relatório sobre a
situação dos Guarani-Mbya do Rio Grande do Sul: a questão de terras. Rio
de Janeiro: Fundação Nacional do Índio, datilografado. 1985, p. 27.
(2) RIBEIRO, Darcy. O
Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 99
(3) CI - CARTAS DE
ÍNDIAS. Carta de Índias. Ed. facs. 3t, Madrid. 1974
in MELIÁ, Bartolomeu. El guaraní conquistado y reducido. 3 ed.
Asunción: Centro de Estudios Antropolológicos, 1993, p. 180.
(4) MELIA,
Bartolomeu. El guarani: experiência religiosa. Asunción: CEADUC-CEPAG,
1991, p. 18
(5) MELIA, Bartolomeu.
GRUNBERG, George. GRUNBERG, Friedl. Los Pai-Tavyterã - etnografia guarani del
Paraguay contemporáneo. Asunción: Centro de Estudos Antropológicos, 1976, p.
175.
(6) NIMUENDAJU, Curt. As
lendas da criação e destruição do mundo. São Paulo: HUCITEC - EDUSP, 1987,
P. 10.
(7) Idem, p. 105.
(8) Idem, p. 106.
(9) Idem, p. 107.
(10) BRAND, Antonio. Op.cit.,
p. 17
(11) NIMUENDAJU, Curt. Op.
cit., p. 71
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