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COMUNISTAS DA FLORESTA Tão
logo encerrou-se a 9ª Conferência Nacional, o deputado estadual Moisés
Diniz (PCdoB/AC) voltou a seu Estado, onde viajou duas horas num
monomotor e mais oito horas num "casco" – uma pequena
embarcação com motor de popa para apenas três passageiros – para
dar notícia dos debates ocorridos em Brasília às suas bases, uma
militância que o conjunto do Partido pouco conhece: os comunistas da
floresta. Primeiro, ele chegou
à aldeia dos índios Yawanawás, para onde levou o governador do
Estado, Jorge Viana, para conhecer a tribo. Lá, Diniz teve seu corpo
pintado e, entre um copo e outro de caiçuma (uma espécie de cerveja
feita da mandioca-puba) e rodadas de mariri (dança coletiva em que
todos se dão os braços), deu o recado. "Foi também a primeira
vez que um governador passou três dias e duas noites numa comunidade de
índios" disse Moisés. E quem diria, índios do PCdoB. Nas semanas seguintes,
o deputado seguiu para novos encontros nas aldeias das demais tribos do
estado – 16 etnias – como os Kaxinawá, Manchinery, Jaminawá,
Kulina, Ashaninka, Shanenawá, Arara, Katukina, Jaminawa-Arara, Nukini,
Apuriná, Poyanawá... O Partido está organizado em praticamente todas
as aldeias, de todos os tamanhos, com presidente, secretário de
organização, representante das mulheres e representante dos jovens.
Todos companheiros índios. Todos comunistas, companheiros da floresta.
E eleitores de Lula. As lideranças do
PCdoB no Acre também não se resumem a Diniz, à deputada federal Perpétua
Almeida, ao deputado estadual Edvaldo Magalhães, também responsável
pela organização dessa militância, ou a vice-prefeita de Xapuri,
terra de Chico Mendes, Maria Elizabeth Farias da Silva. Cerca de 90% das
lideranças indígenas acreanas são comunistas. Foi delas que emergiram
o segundo suplente da senadora Marina Silva (PT), hoje ministra, Antônio
Apurinã, o vice-prefeito do município de Santa Rosa, Francisco Kaxinauá,
e cinco dos 15 vereadores no exercício do mandato. Tantos quadros índios
é resultado de mais de 20 anos de trabalho de aproximação do PCdoB
com os Povos da Floresta. O próprio Partido teve como um de seus
fundadores, no Acre, há 18 anos, o índio Manuel Kaxinauá. Tudo começou
em Tarauacá, cidade de Moisés Diniz, que lhe deu 20% dos votos nas últimas
eleições. Diniz mesmo é neto de brasilíndio – denominação usada
por Darcy Ribeiro para os filhos de pai branco e mãe índia. Sua avó
era Ashaninka – povo indígena do Acre, descendente dos Incas e
conhecido no Peru como Kampas – e seu avô um seringueiro nascido no
Ceará, que durante a Segunda Guerra Mundial foi para o Acre como
soldado da borracha.
As enormes diferenças
que separam as civilizações de homens brancos e índios ficaram
menores quando se encontraram no PCdoB. Diniz acredita que a aproximação
foi possível porque os índios se identificaram com a proposta
socialista que o Partido tem para o Brasil. Eles vivem em regime de
comunidade. A terra pertence a todos. Cada aldeia tem sua roça, de onde
extrai alimentos para todos. A produção é socializada, pois produzem
e consomem coletivamente. Uma sociedade organizada assim não tem
classes sociais. "Só idealismo
também não seria suficiente. Durante 20 anos os brancos do Partido
fizeram os primeiros contatos e até dormiam com eles na floresta",
disse o deputado. As comunidades já estavam num processo de franca
destruição. A maioria dos índios embriagava-se com álcool curativo
puro, que ganhavam para tratar feridas e morriam com úlceras supuradas,
entre outras doenças. Muitos só falavam o português e, por causa do
álcool, já haviam deixado de lado velhos hábitos como beber a caiçuma,
que é a cerveja deles, até dançar o mariri. "O Partido conseguiu
resgatar tudo isso. Acho que esse trabalho de conscientização foi a
nossa maior conquista", diz Moisés. As tribos, hoje, têm escola,
onde um professor ensina português e a língua nativa. O resgate da própria
cultura não impediu a modernidade. Índio no Acre assiste TV com
energia solar e antena parabólica, vê novela, mas também não perde
as aulas dos telecursos. De acordo com Diniz, cerca de 70% das aldeias têm
"salões" comunitários – na verdade, o
"cupichawa", uma área coberta com palha, construída pelo
governo do estado, onde fica a televisão, o aparelho de videocassete e
é o local das festas e reuniões. Por falar em festa, as
aldeias instituíram um sistema próprio de segurança à moda dos
brancos. Elegem um juiz, um delegado e um promotor – geralmente entre
os mais velhos – e grupos jovens devidamente selecionados atuam como
segurança. Quem fizer besteira na festa, é preso pelo delegado – não
há cadeia, são amarrados num tronco de árvore até acabar a festa. No
dia seguinte, o juiz e o promotor decidem qual é a punição, que se
resume, normalmente, à prestação de serviços. Outra proposta do
Partido que está para ser aprovada prevê o ensino de línguas nativas
nas escolas das redes pública estadual e municipal, onde a maioria da
população for indígena. Ou seja, branco também vai aprender uma
segunda língua brasileira. Por iniciativa do deputado Edvaldo Magalhães,
o Acre é o único estado brasileiro cuja Constituição dedica um capítulo
inteiro aos índios que, por iniciativa do mesmo deputado, terão orçamento
anual próprio a partir de 2004. Moisés Diniz, no entanto, não esconde a mágoa quando lembra que a Constituição brasileira só fala em índios para dizer que eles são tutelados. "Aqui no Congresso Nacional, o Estatuto do Índio está tramitando há 30 anos e nunca houve uma comissão permanente que tratasse de seus interesses", desabafou. "Só agora é que nossa deputada (Perpétua Almeida) conseguiu criar uma subcomissão na Comissão da Amazônia", completou. De acordo com o deputado, o Partido fez um acordo com o PT para que, em algum momento da atual legislatura, Antônio Apurinã assuma a cadeira de senador. Apurinã viria com o compromisso reabrir o debate em torno do Estatuto. "Mesmo sem contar com Brasília, os nossos índios, hoje, têm uma concepção nacionalista, a crença de que a Amazônia é brasileira e que deve lutar por ela", garantiu |
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