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500 ANOS DE
RESISTÊNCIA INDÍGENA
OS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL, NOSSO IMAGINÁRIO E A ACULTURAÇÃO VENCIDA Segundo cacique Alexandre
,
no início da década de setenta, através da construção
da Transamazônica, o povo Tenharim teve seu primeiro contato pacífico com a sociedade
não-índia. Ainda segundo Alexandre, os
Assim como todos povos indígenas que vivenciaram o contato com a
sociedades não-índias, o povo Tenharim assistiu a redução de seu território original
e o adiamento de seu projeto histórico. Nestes cinco séculos de conquista, que os
eufemistas insistem em denominar descoberta do novo mundo, os povos Há época da conquista da américa portuguesa, segundo alguns estudiosos como Darcy Ribeiro, floresciam cerca de 500 povos na terra que, posteriormente, os portugueses batizaram de Brasil. Assim como, de imediato, também batizaram esses povos, - cada qual com suas características distintas, como língua, religião e autodenominações próprias - simplesmente de "índios". O escrivão Pero Vaz de Caminha
não
hesitou em afirmar, embora desapontado com a aparente ausência de metais preciosos, que
eram limpos e saudáveis. Repetindo o navegador Cristovão Colombo exatamente oito
anos antes, que, ao desembarcar na ilha de São Salvador, ao descrever os habitantes
Tainos afirmou: "Tão amáveis, tão pacíficos são eles, que juro a Vossas
Majestades que não há no mundo nação melhor. Amam a "Os nossos tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar o seu arabutan. Uma vez um perguntou-me: por que vindes vós outros, maírs e perôs (franceses e portugueses), buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com seus cordões de algodão e suas plumas. Retrucou o velho imediatamente: - e porventura precisais de muito? - Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: - e quando morrem para quem fica o que deixam? - Para seus filhos, se os têm, respondi; na falta destes, para os irmãos ou parentes mais próximos. - Na verdade - continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo - agora vejo que vós maírs sois grande loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos, mas estamos certos de que depois de nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados (...)".
Tal quadro muda radicalmente quando os europeus iniciam o chamado ciclo da cana-de-açúcar e passam a ocupar e conquistar territorialmente o litoral brasileiro. De súbito, o europeu, de visitante esporádico transforma-se em invasor. Segundo a historiadora Ilana Blaj: "A história do trabalho indígena nos engenhos começa com o português propondo a continuação do esquema do escambo também nos engenhos, tendo em vista que o índio agora está dependente do facão e do machado. Em um primeiro momento o indígena se submete ao trabalho da lavoura do açúcar, mas vai percebendo o engodo; compreendendo que esse trabalho nunca vai terminar e que ele permanecerá preso á terra do senhor de engenho e então começam as rebeliões indígenas ( grupos de indígenas aprisionados queimam casas de senhores de engenho, lavouras, etc...), estabelecendo um clima de tensão generalizado, que põe em risco a grande empreitada da colonização do Brasil".
Devido a essa reação violenta - por muito pouco as diversas revoltas
indígenas, especialmente a Confederação dos Tamoios ocorrida no atual Estado do Rio de
Janeiro, em meados do século XVI, não E, justamente por resistir, ainda que de maneira diversificada aos também distintos momentos da expansão capitalista européia - ora através da guerra cruenta e aberta, ora através da guerra de guerrilhas, ou mesmo recorrendo da subserviência calculada ao suicídio coletivo - que, no imaginário não-índio, criou-se um rico e variado leque de preconceitos acerca destes povos indígenas. Imaginário ainda hoje explorado por este mesmo processo expansionista que volta e meia reaparece nos discursos em defesa da redução da terras indígenas, como na célebre frase "muita terra para pouco índio", ou mesmo no olhar complacente da justiça brasileira em relação aos seguidos crimes contra estas populações (basta lembrarmos, entre outros, do Massacre do Paralelo 30 ao assassinato da grande liderança Guarani Marçal Tupã, que permanecem impune até os dias de hoje). Este imaginário colonial também subsiste, ainda que de outra forma, nos inúmeros livros didáticos ou mesmo "históricos" que contaminados pelas retinas conquistadoras insistem em classificar os diversos povos indígenas do Brasil de simplesmente "índios".
Em geral este índio ordinário do livro didático tem um
filho chamado curumim ( ou mesmo Papa- Capim, segundo Maurício de Souza), mora em
uma habitação denominada oca ou taba, reza para um deus invariavelmente
chamado Tupã que, entre outras coisas seria o senhor do céu e dos trovões, e
veste-se com tangas de penas de arara. Porém, como já afirmamos acima, estes índios
ordinários pertencem a diversos Outra incompreensão incansavelmente repetida é o chamado "índio aculturado", ou seja, todo e qualquer indígena que não preencha os requisitos básicos do imaginário popular à respeito de como "deve ser" o indígena brasileiro (morar no amazonas, vestir-se de penas e falar mal o português) é logo acusado de ter "perdido sua cultura". Como se cultura fosse algo que se perdesse como se perde um objeto de consumo.
Atualmente existem dezoito aldeamentos (em sua grande maioria
pertencente ao grupo Guarani) no Estado de São Paulo - sendo que, três destes na Grande
São Paulo - e três comunidades Guarani no Estado do Rio de Janeiro, nos municípios de
Angra dos Reis e Parati-Mirim. O que o senso-comum não percebe e a É importante perceber, que estas modificações não se dão de maneira aleatória, mas através uma criteriosa seleção em relação ao que deve ser acrescentado ou não. Tendo claro que "acrescentar" não significa simplesmente incorporar, mas, ao contrário, é a consequência de uma profunda reflexão por parte de grupos humanos. Este "acrescer" não se dá de forma pacífica e absoluta, grupos culturais distintos adaptam-se de maneira distintas no calor da batalha. Nesse sentido, da mesma forma que não se deve pensar em culturas passivas que aceitam sem traumas as transfigurações impostas por uma outra, tampouco devemos pensar em um diálogo de culturas, pois, todo diálogo demanda em igualdade de condições. Uma regra que não vem sendo respeitada pelo estado brasileiro á quinhentos anos.
Recentemente, na Câmara Municipal de Itanhaém - litoral sul de São
Paulo, durante Mas, voltando aos Tenharim do início do texto, ao que tudo indica, os trovões ouvidos pelo cacique Alexandre encontram-se cada vez mais perto, e, hoje, muito tempo depois da inédita quinquilharia manufaturada, estes índios, apesar de terem seu território original sensivelmente reduzido e estarem em franco contato com as bordas da sociedade não-índia, seguem falando a língua de seus pais (além de um português instrumental) e levando o credo dos antigos.
Em tempo, recentemente, nas comemorações dos 500 da descoberta do Novo Mundo, Portugal convidou membros do governo indiano para participar dos festejos em Lisboa, ao que a Índia respondeu que não via sentido em comemorar o processo histórico que levou a sua colonização e a escravidão de outros tantos povos. CARTA ABERTA OUTROS 500 Nós, professores e lideranças Guarani reunidos na aldeia de Sapukaí nos dias de 28 fevereiro a 04 de abril na aldeia Guarani de Sapukaí/RJ, no I Encontro Nacional de Educadores Guarani vindos dos estados de SC, MS, ES, SP, PR e RJ relembrando a nossa história juntos com outros parentes, afirmamos que o nosso povo existe a milhares de anos, e tem seus costumes, tradições e jeito próprio de ser. Nestes últimos 500 anos, o mundo não-índio não fez mais do que desrespeitar nosso jeito de ser, se interessando apenas por nossas riquezas, nossas matas, nossos rios. O mundo não-índio, sempre nos mostrou sua pior face, sempre tentando nos domesticar com sua religião e força bruta, falando que nós não somos "civilizados", mas nos mostrando uma civilização com cara de anjo e coração de lobo. Nos dividindo para impor um outro modo de ser, através das fronteiras nacionais e a tutela do estado. Pedro Cabral e os jesuítas ainda estão vivos e a conquista continua, nas mortes de Marçal Tupã, Xicão Xucuru, Galdino Pataxó e na impunidade de seus assassinos.Por esse motivo, nós, o povo Guarani, não comemoramos estes 500 anos de destruição, que o estado brasileiro vem insistindo em festejar de forma enganosa e mentirosa, não só para os povos indígenas, mas também para as classes populares do Brasil. Durante 500 anos cortaram nossos galhos, queimaram nossos troncos, mas não conseguirão destruir nossas raízes, pois, com as lágrimas de Nanderu Tupã os galhos que foram cortados brotarão. Isso é o que pensa os educadores e lideranças Guarani, não a conquista, não a conquista, não as comemorações.
Assinam 40 Professores e lideranças Guarani reunidos no I Encontro Nacional de Educadores Guarani/Aldeia de Sapukaí Angra dos Reis. Aldeia de Sapukaí, Angra dos Reis 04 de março de 2000. |