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ESCOLA INDÍGENA GUARANI PROPOSTA POLÍTICO PEDAGÓGICA ÍNDICE: 1 -
Introdução A Proposta Político Pedagógica que aqui se apresenta é fruto da discussão entre os professores e lideranças Guarani das comunidades de Tekoa Añetete (município de Diamante do Oeste) e Ocoy (município de São Miguel do Iguaçu) juntamente com a assessoria pedagógica dos professores Paulo Porto e Ilda Perrucini do Departamento de Educação da UNIPAR/PR. Na elaboração deste trabalho foram utilizadas diversas fontes de consulta, como os Referenciais Curriculares Nacionais para as Escolas Indígenas, editado pelo MEC, e, outras experiências escolares indígenas, em especial, a proposta curricular da Escola Indígena Guarani Kyringue Yvotyty da comunidade de Brakuí, em Angra dos Reis/RJ, formulada pelo pedagogo Domingos Barros Nobre e comunidade de Brakuí. A concepção da autonomia escolar nas áreas tanto administrativa como pedagógica que se encontra presente em todo o texto, é pautada nas orientações do MEC á respeito da necessidade de construir experiências autônomas e caracterizadas pelo respeito a tradição e costumes das comunidades indígenas, que devem ser comunitárias, interculturais, bilíngües e específicas (entendendo específica em sua plenitude, inclusive administrativamente). Segundo o MEC, são características de uma escola indígena:
Também é importante salientar que esta proposta está de acordo com as proposição da Nemboty Guasu Guarani, entidade nacional Guarani do povo Guarani que em IV Assembléia afirmou em relação às escolas Guarani:
E, mais adiante, esta mesma resolução avança na discussão de "como" essa pretensa escola deveria ser estruturada, debatendo sobre qual a metodologia indicada em sua construção. Afirmando os seguintes pontos:
Nesse sentido, é de suma importância destacar que este Projeto Político Pedagógico que aqui se apresenta é pautado nos pressupostos do Ministério da Educação e na vontade do povo Guarani em possuir uma escola diferenciada e específica. No mais, também deve-se destacar que a concepção de currículo que permeia esta proposta: é o conjunto de práticas sócio-culturais que permeiam a existência da escola e nas quais ela se insere. O currículo é portanto, causa/consequência dessas práticas sócio-culturais. Neste sentido ele é histórico, transformando-se junto com a dinâmica social da comunidade.
2 - Oguata Porã - A Gênese Guarani Essa história foi Davi Guarani quem contou: "Esse mundo não durará muito tempo. Meus filhos que vão estar no mundo vão ter que se separar. O mundo é muito grande. Por isso vão se separar em, mais ou menos, três famílias, e deverão caminhar (oguata) Então, do começo do mundo (yvy apy) vieram andando, procurando seus lugares, seus verdadeiros lugares. Vieram do começo do mundo e andaram pela beirada do oceano (yy ee remberupi meme) para encontrar o fim do mundo (yvy apy). Eles andaram sobre as águas e ficaram no meio das águas (yy pau rupi), nas ilhas (parakupe). Eles andaram para o bem. E se separaram, cada um com suas companheiras, cada um com suas famílias. Eles andaram e atravessaram as águas, parando sempre no meio do oceano. Então deixaram as ilhas para nós, filhos caçula (‘ay apyre), para vivermos nesses lugares. Quando eles vieram, eles passaram onde hoje se chama Argentina, Uruguai e Paraguai. Depois vieram para esse mundo (Brasil). Então vieram para este meio do mundo (yvy mbytere). Então começou a caminhada para a beirada do oceano. E foram fundando vários lugares para depois "serem cidades" (tetã). Passaram em Kuriyty (Curitiba) e pararam algum tempo. Ali se separaram. Alguns desceram pelo mato, em direção ao mar, à procura de seu lugar. E encontraram Opavãpy ou Iparavãpy (Paranaguá). E, de novo, se separaram naquele lugar. E de lá foram para as ilhas (yva pau = espaço no céu, ou yy pau = espaço entre as águas), no meio do oceano. Quando nossos irmãos mais velhos (Nhanderykey) se separaram em Opavãpy, cada grupo se repartiu entre as ilhas. Alguns foram para Jakutinga (Ilha da Cotinga), alguns foram para Eiretã (Ilha do Mel), algumas famílias foram para Piragui (Superagui), para todas as ilhas. Alguns daqueles que se separaram em Kuriyty desceram também até a beirada do oceano. Então pararam de novo num lugar onde encontraram uma fonte d’água, boa de beber, num lugar muito limpo, Oyguarã (Iguape). Então, limparam ainda mais o lugar dessa água e lá ficaram muito tempo. Passou muito tempo, as crianças já ficaram como os adultos. As meninas ficaram adultas. Os meninos ficaram como os adultos, pois eles já sabiam todos os acontecimentos. Então, eles seguiram o mesmo caminho de seus antepassados (ijaguyjevy), daqueles que tinham a plenitude, daqueles que alcançaram yvyju porã, a terra perfeita. Então, alguns subiram pelas montanhas. Eles vieram pelas montanhas. No alto das montanhas eles paravam. Paravam nos lugares planos onde poderiam ficar por algum tempo (yvy vau rupi opyta pyta aguéma). Nós, todos nós desde antigamente, "andamos para o bem" ( oguata porã), iluminados por Nhanderu. E, antigamente, Nhanderykey ( nossos irmãos mais velhos) não tiveram dificuldades. Não havia fome, nem doenças, antigamente. Estavam em plenitude (aguyje) e não sentiam nenhum mal em seus corpos, pois só seguiam os ensinamentos de Nhanderu. Pois não comiam as coisas deste mundo, não comiam sal. Eles comiam milho, Kaguyjy (chicha de milho). Todos os nossos antigos avós, nossos avós, nossos avós antigos paravam onde o lugar era nosso, nhanderekoa. Onde eles chegavam, onde recebiam a iluminação ficavam o tempo certo para produzirem seus alimentos. Nossos avós descobriram esses lugares, pois eles andavam pelo mundo, pela beirada do oceano. Mas eles andavam por si mesmos. Eles andavam pela iluminação de Nhanderu (omoixakã). Eles vieram do começo do mundo. Nhanderu deu a iluminação e falou para eles cumprirem os seus ensinamentos. E eles cumpriram o que Nhanderu falou. E em cada lugar que paravam eles deram um nome. Depois, alguns dos nossos antigos avós andaram para outro lugar. Então, chegaram num lugar onde encontraram um pássaro marrom, Biguarãpy (Biguá). Lá pararam mais ou menos três anos e saíram todos por cima dos morros, procurando novos lugares, guiados pela iluminação. E onde não dava, onde a terra não dava para eles ficarem (não era boa para as plantações), saíam todos para lugares melhores. E alcançaram a terra onde tem muitas pedras Itarentapy ou Itaryryi (Itariri). E lá pararam. E lá se separaram de novo. E aqueles que andaram, chegaram num lugar onde disseram: vamos subir as pedras, Itanhae, (Itanhaém). E ali eles ficaram. E dali muitos alcançaram o seu destino, yvyjuporã (terra perfeita). E eles, de novo, se separaram, e muitos entraram pelos matos. Onde eles paravam, as crianças já ficavam adultas, os meninos já sabiam tudo, então eles de novo andavam. Das pedras onde eles estavam (Itanhaém), eles saíram de novo e continuaram seguindo à beira do oceano. Então, eles chegaram no lugar que agora já é chamado pelos brancos de Santos. Eles não pararam por lá, passaram (alguns lugares eles só paravam para descansar). Onde eles foram parar mesmo, chamaram o lugar de Para (Parati), e mais para dentro do mato chamaram Para Miri (Parati Mirim). Nesse lugar verdadeiro existem as criações de Nhanderu (Nhanderu mymbai). Pois em Para Miri, onde eles pararam, as meninas e os meninos já ficaram como adultos. Alguns voltaram para trás para encontrar seus próprios parentes "mais fracos" que ficaram para trás, também à procura de seus lugares. E os que voltaram para trás, se encontraram no lugar onde deixaram seus próprios parentes, reunindo-se com eles e entrando pelos matos. Alguns faleceram no lugar onde pararam. Alguns atravessaram o oceano. Os que voltaram para trás foram dando nomes a todas as "coisas" e animais. E em cada lugar que passavam, davam o nome dos bichos e das coisas que haviam no lugar. Onde eles viram Yguaxu (Ubatuba) deram esse nome à cidade (tetã) que depois vai ser chamada pelos brancos de Ubatuba. Depois eles se separaram, indo mais para dentro do mato. Alguns continuaram. Onde eles viram uma cobra enorme que sempre ficava num buraco no meio do caminho onde eles passavam, eles deram o nome de Mboikua (Boiçucanga). E alguns que foram para os matos procurando outros lugares, encontraram seus verdadeiros lugares. Aqueles que saíram de Para Miri (Parati Mirim) seguiram para frente e chegaram em Tangara (Angra dos Reis). Nesse lugar, Tangara amba, existia muitos desses passarinhos. Então, quando Ijaguyje ("aqueles que estavam em plenitude") chegaram nesse lugar, conheceram mais um lugar para seus filhos caçulas (Itatinga). E os mais velhos atravessaram o oceano. E os que ficavam, sempre tinham yvyraija (líder espiritual que dirige o grupo, "o dono da varinha") que ordenava a caminhada pela beira do oceano. Deixaram Tangara, que vai ser chamada pelos brancos da Angra dos Reis. Então, depois de muito tempo ali, seguiram o seu caminho e foram até o lugar chamado Yvy Apy (extremidade do mundo), (Ara Kruxu - Aracruz, ES), onde pararam. Desse lugar não puderam mais prosseguir. De lá, só seguiram aqueles que atravessaram o oceano (yy ee) e atingiram yvyjuporã. Os que ficaram guardaram o lugar para nós, seus filhos caçulas. Antigamente,
Nhanderu ete, o pai verdadeiro, disse: - ‘A terra é para todos, nenhum
de vocês deve ter ciúme da terra’". A Escola Indígena Guarani parte necessariamente da cosmovisão guarani para pensar que tipo de pessoa querem ajudar a formar. Os guarani consideram o reko ete como eixo central de sua educação, devendo, portanto estar presente na Escola. Apontam como característica desse jeito de ser o envolvimento "em todas as questões internas da comunidade indígena" Acham que: "a pessoa tem que estar bem por dentro de como a sociedade indígena pode trabalhar." Segundo a comunidade Guarani e suas lideranças tradicionais, a escola deve ser apenas "um galho da cultura guarani", cuja raiz se encontra na opy guasu de onde emana toda sabedoria, todo reko ete. Devido á isso, o papel do Conselho dos Velhos, o Ijeyvateve Kuery, é de fundamental importância para o bom andamento pedagógico e administrativo da instituição escolar. Segundo os mais velhos: "Tem que ser um conselheiro. Dar conselhos para as crianças dentro e fora da Escola. As crianças quando se formarem devem trabalhar para a comunidade." Pois "as lideranças nos ensinaram que as crianças devem crescer com sabedoria. Há dois tipos de sabedoria: Sabedoria adquirida, pela formação, pelo estudo, pela ajuda de outros professores. Sabedoria da religião - os caciques têm sabedoria que a gente não vê. Não é qualquer um que aprende." Aqui apresenta-se já alguns eixos centrais da educação guarani: o Nhanderu Rekó - O jeito de Deus ser e a Comunidade. Desenvolvendo o reko ete os guarani estabelecem as qualidades que um bom guarani índio deve necessariamente possuir: boa comunicação com a comunidade (oralidade), participar ativamente das atividades da comunidade, em especial da casa de reza, respeitar os mais velhos e seus conselhos, respeitar as palavras sagradas guarani, e traduzi-las em seu dia-a-dia, respeitar sua família (não trocar de mulher), não mentir, não discutir alto, não brigar na comunidade e, não ser viciado nos vícios não-índios, como bebida alcoólica e bailes. Além de, no caso do professor, escrever e ler com facilidade. A Escola preconiza um projeto em relação ao guarani que se deve construir visando uma sociedade na qual as decisões sejam coletivas e da maioria, e a economia seja a de reciprocidade. Uma sociedade essencialmente comunitária e avessa as diferenças sociais do capital. Esta Escola também deve possuir e promover um diálogo fecundo com a cultura não-índia, como conhecimentos formais nas diversas áreas de História, Geografia, Ciências, Matemática e Lingüística.
As estratégias metodológicas da Escola Guarani de Ocoy/Tekoa Añetete serão construídos e baseados no reko ete guarani, em especial, pautados na oralidade e linguagem guarani.
1o Ciclo (6 a 8 anos) Objetivos: Desenvolver operações de classificação Conhecer a alimentação e os cuidados com a saúde Conhecer os remédios naturais Trabalhar com dança e música Introduzir o sistema numérico guarani Trabalhar noções de tempo e espaço Conhecer os animais, plantas e o corpo humano Trabalhar com artesanato (madeira, bambu, cipó, coqueiro, penas de pássaro, ossos de animais) Caçar e pescar
2o Ciclo (9 a 11 anos) Objetivos:
Matemática:
Ciências:
História / Geografia
3o Ciclo (12 a 14 anos) Objetivos: História:
Geografia:
Línguas:
Matemática:
4o Ciclo (acima de 14 anos) História
Matemática
Ciências
Geografia
Línguas
6 - A Organização da Escola Indígena Guarani Tekoa Añetete A Escola Indígena Guarani Tekoa Añetete é organizada através de um corpo administrativo e docente, na qual participam professores Guarani e não-índios, além do cacique, do Ijeyvateve Kuery e assessoria específica. Os professores indígenas Guarani escolhidos pela comunidade e Secretaria são: Vicente Ava Jegavyju João Guarani
7- A Organização da Escola Indígena Guarani de Ocoy A Escola Indígena Guarani Ocoy é organizada através de um corpo administrativo e docente, na qual participam professores Guarani e não-índios, além do cacique, do Ijeyvateve Kuery e assessoria específica. Os professores indígenas Guarani escolhidos pela comunidade e Secretaria são: Teodoro Alves Justino de Sousa |