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A saga dos deuses guaranis
História mitológica inédita dos índios guaranis Mbyás de São
Miguel, Biguaçu (Santa Catarina). Por Ozias Alves Jr (jornalista) e-mail: ozias@matrix.com.br
Tidos como criaturas do mal, os "Pambá é
Djaguá", que a civilização ocidental chama de
"Dinossauros" ("Lagartos Terríveis" em grego), foram
mortos pelo terrível calor provocado pelo cometa. Sobre as cinzas deste
mundo, "Nhanderú etê"decidiu repovoá-lo com um novo
ser, o "Homem". Em guarani, "Nhanderú etê" significa
"Deus Verdadeiro". É o Deus de forma humana cujos olhos
refletem a infinidade das cores. Onde aparece, reflete luz. Vaga pelo
cosmos num veículo voador chamado "Bairý". "Nhanderu ete"
percorreu o "Nhe'ê Rekuagui", o "lugar das
almas", o mundo dos espíritos. De lá trouxe "Nhande
ypy", o "Primeiro Homem", transportando-o em seu "Bairý"
até a Terra. Chegando aqui em nosso planeta, "Nhanderu
ete" advertiu a "Nhande ypy" que sua missão era
povoar a Terra e não permitir que o egoísmo tomasse conta dos corações
de seus descendentes. Acrescentou o deus que o egoísmo tornar-se-ia a
raiz de todo o mal da humanidade pois desencadeia as guerras e toda sorte
de violência do homem contra o homem. Advertiu para que os homens
prezassem por sua memória, cujo exemplo inspiraria os homens a praticar o
bem. Nascia ali a religião guarani. - Nunca pense em si para que a humanidade não sofra,
aconselhou profeticamente o Deus na língua do mundo dos espíritos que se
transformou no primeira idioma da Terra, segundos os guaranis mbyás. "Nhandeý pý" era um espírito.
Chegando à Terra, transformou-se num "homem" de carne e osso.
Um espírito, se quiser e tiver a energia necessária, pode se
materializar em forma de um corpo, diz a tradição dos índios guarani. "Nhandeý pý" , o "Adão"
dos guarani mbyá, ficou dois anos sozinho na Terra. "Mokõi
aragudjê" (dois anos depois), eis que o deus "Nhanderú
etê" voltou ao mundo espiritual "Nheé Rekuaguí"para
trazer uma "Nhande Tchir pý" (A 1ª mulher). Tomando-a
como esposa, "Nhandeý pý"teve seis filhos cujos nomes
são: 1) Kraí í (Poder Divino), 2) Nhamandú (Reflexo do
Sol), 3) Djatchir (Dona da Noite), 4) Wherá Tupã (Deus da
Chuva), 5) Wherá Nhimbodjerê (Dia e Noite, o giro da Terra) e 6) Pará
Guatchú (Oceano). Eram cinco homens e uma mulher ("Djatchir").
Eis o grupo inicial do qual, segundo os guaranis, descende a humanidade.
Os mbyá têm o costume de adotar como sobrenome um dos seis filhos do
casal "Nhandeý pý" e "Nhande Tchir pý".
Segundo eles, tal costume visa indicar de quem descende os atuais índios
entre os seis primeiros filhos da humanidade. O primeiro casal e seus filhos são os primeiros homens
"mortais" da humanidade, de acordo com a mitologia guarani
mbyá. O deus supremo "Nhanderú etê" gerou três deuses
secundários principais para serem seu intermediário junto aos homens.
Tratam-se de: 1) "Kraí" (Iluminado), 2) "Kraí
Rendy Vydjú" (Poder da Luz) e 3) "Kraí Kendá"
(Anjo que mostra o Bem e o Mal). Este último, "Kraí Kendá", é quem
os católicos chamam de "Anjo da Guarda" pois é um espírito
que adverte os homens sobre o Bem e o Mal. É aquela voz interior que
chamamos "Consciência". Ao mesmo tempo que os deuses vindos do espaço sideral
percorriam a Terra, o Adão e Eva da mitologia guarani mbyá vivia num
mundo de bonança e prosperidade. Mas faltavam os netos. O casal tinha
seis filhos- cinco homens e uma mulher. Os filhos não tinham esposas. Se
quisesem ter filhos, só a irmã. Porém, mesmo nos primórdios da
humanidade, respeitava-se o tabu do incesto, isto é, irmão não poderia
manter relação sexual com a irmã. Em virtude desse problema, o deus supremo do universo "Nhanderú
etê" voltou novamente ao mundo dos espíritos, o "Nheé
Rekuaguí", no qual buscou três mulheres e um homem.
Transportou-os em seu "bairý", a nave voadora que
atravessa os confins do universo numa velocidade inimaginável. As três mulheres tornaram-se as esposas dos cinco
irmãos. Já o homem trazido pelo deus tornou-se o marido da filha Djatchir
(Dona da Noite). Desses casamentos, nasceram filhos, netos do primeiro
casal da humanidade. Os netos, todos primos, casaram-se entre si. Houve
também casamentos com tios. Assim foi-se passando o tempo e a população
humana multiplicando-se no planeta Terra. A população cresceu acentuadamente ao longo do tempo.
Todos falavam a mesma língua. Ao contrário dos católicos, os guaranis
mbyás não possuem lenda semelhante à da bíblica Torre de Babel. Dizem
que a primeira língua do mundo, surgida por inspiração divina, foi
modificando-se ao longo do tempo quando grupos foram afastando-se da tribo
original com o objetivo de conquistar a Terra. Com o distanciamento e a
falta de comunicação, tais grupos foram inventando novas palavras que se
tornaram particulares da tribo. Com o tempo, passaram a falar idiomas cada
vez mais diferentes, de sorte que chegou um tempo em que as diferentes
tribos não mais se entendiam. As mudanças apareceram não só apenas nas línguas.
Os povos, mesmo primos, foram diferenciando-se em costumes, hábitos,
cultura, vestuário e, principalmente, religião. Dois eram os principais
grupos humanos. O primeiro era os da tribo dos "Kurupí" (egoístas).
O segundo tratava-se dos "Iapó Gú" (os que vivem nas
rochas). Os "Kurupís" formavam uma coligação
de povos em cuja religião já não mais se cultuava o verdadeiro deus, o
"Nhanderu etê", mas "espíritos ruins da
Terra". Segundo os guaranis, os "Pambá é Djaguá"
(as criaturas terríveis dos primórdios da Terra-
"dinossauros") eram guiados por espíritos ruins. Com a morte
das criaturas, os espíritos desprenderam-se dos animais e ficaram vagando
pela Terra. Com o tempo, povos como os "Kurupís" passaram
a cultuar tais espíritos que apareciam em forma de "fantasma".
Conforme os índios, os "fantasmas" são os espíritos ruins
que os católicos chamam de "demônios". Só vivem na Terra.
São tão medíocres que não vieram do cosmos. Nasceram da própria
Terra, um mundo de provação. Em guarani, recebem o nome de "Baipotchir"
(Raiva de Gente). Já os "Iapó Gú" eram os povos que
viviam em aldeias de casas de pedra nas quais contavam com iluminação
moderna. Seria a eletricidade? A religião dos "Iapó Gú", ao
contrário dos "Kurupí", não invocavam demônios "Baipotchir"
como deuses. No entanto, esse povo também não acreditava em "Nhanderú
etê". Havia alguns entre eles que eram "puros de
alma", mas a grande maioria não passava de gente corrupta
moralmente. Antes poucos, os "kurupi"
multiplicaram-se demasiadamente de sorte que passaram a ambicionar a
conquista do mundo. Entre os "kurupi", havia um chefe
chamado "Karambá", chefe de um poderoso exército. Sua
alma fora dominada por um diabo "Baipotchir" . Alucinado
pelo mal e de alma perversa, "Karambá' ambicionou conquistar
os "Iapó Gú". Eis que um dia começou uma gigantesca guerra entre os "kurupi"
e os "Iapó Gú". Ambos povos não dispunham de
tecnologia. Fora uma guerra de "machados de pedra". Mas as
batalhas impressionaram pelo número gigantesco de combatentes. Somavam
milhões de guerreiros. A guerra toda durou apenas dois meses, mas fora
devastadora. Matou tanta gente que a humanidade ficou reduzida ao mínimo.
O local da batalha final situa-se hoje num ponto do oceano, surgido após
o dilúvio, a catástrofe que ocorria na Terra séculos após a grande
guerra dos "kurupí" e os "Iapó Gu". O chefe "Karambá" sobreviveu à
catastrófica guerra, mas não viveria por muito tempo. Sucumbiu a uma
doença misteriosa. Já os poucos sobreviventes entre os "Iapó
Gú" tornar-se-iam, milênios mais tarde, os pais dos povos da
antiga Atlântica, a misteriosa ilha do meio do oceano atlântico, e os
incas, conforme diz a lenda guarani mbyá. Não se sabe quanto tempo foi, mas as poucas milhares
de pessoas que sobraram após a grande guerra foram multiplicando-se
novamente nos séculos de paz que se prosseguiram. No entanto, as novas
gerações tornaram-se mais perversas ainda. Continuaram a não acreditar
no deus verdadeiro, o"Nhanderú etê". Sucederam-se
séculos de inúmeras breves guerras de pilhagem. Tratava-se de um mundo
de mentira, persevidade, pecado e crueldade. Poucas tribos eram as que acreditam em "Nhanderú
etê". A maioria dos povos tornou-se idólatra de deuses "baipotchir"
. E a Terra tornou-se novamente um mundo de total
corrupção moral. Numa de suas passagens pelo planeta, "Nhanderú
etê" concebeu a idéia de que o mundo deveria ser destruído
para recolonizá-lo com homens mais puros como "Nhamanduráý"
(Filho do Sol). Concebeu a idéia do "Dilúvio". "Nhamanduráý" acreditava em "Nhanderú
etê". Sua fé era persistente. Numa certa noite, "Nhanderú
etê" apareceu em sonho, dentro de seu veículo voador "Bairý",
para "Nhamanduráý" . No sonho, o deus avisou-lhe que
iria destruir o mundo com uma chuva torrencial. Descendente de uma mortal
com o deus "Kraí Kendá", "Nhamanduráý"foi
aconselhado a subir na maior montanha da terra, único lugar em que a
água do Dilúvio não alcançaria. Com ele e sua mulher "Nhandetchir
Ypy", outros dois casais foram avisados para se salvarem no alto
da mesma montanha. Eis que quando tinha 86 anos de idade, o grande
Dilúvio começou com uma tempestade nunca antes imaginada. Foi então que
a humanidade inteira foi destruída, sobrando os três casais, sob
liderança de "Nhamanduráý" . Antes a Terra era um imenso continente. Após o
Dilúvio, surgiram os "Para Guatchú" (oceanos) que
dividiram a Terra em vários continentes. Foi então que o hoje conhecemos
como América ficou separado da Europa, África e Ásia. Antigos rios
transbordaram formando mares. Montanhas viraram ilhas. A humanidade voltou à estaca zero com três casais.
Logo "Nhamandu Ra'y" ficou viúvo pois sua mulher, que
havia perdido a fé em "Nhanderu eté", falecera de
"Ikaruguapá" (paralisia). Outras doenças dizimaram os
outros dois casais pelo mesmo motivo de não terem fé no verdadeiro deus. Eis que "Nhanderú etê"buscou uma
mulher para "Nhamandu Ra'y"em outro mundo espiritual
chamado "Nhanderu Vutchu" (Onde o Sol nasce). Os índios guaranis acreditam que a alma boa vai para o
céu e o mal fica na Terra com os diabos. Estes últimos são invisíveis,
mas segundo os índios, as pessoas sentem suas desagradáveis presenças. Eis que um dia veio à Terra "Nhanderu
Ra'y" para a missão de ensinar os homens o verdadeiro
ensinamento de "Nhandery etê". Segundo os índios,
"Nhanderu ra'y" era "Jesus Cristo".
Contando a História do Guarani Nato da Região da
Grande Florianópolis e principalmente da Ilha de Santa Catarina
Por Milton Moreira Wherá Mirim Na Ilha de Santa Catarina, tinha uma aldeia que se
chamava Tekoa Guassú-Há-Há-Kupé. Essa aldeia era muito respeitada,
porque só moravam caciques, curandeiros, conselheiros, líderes de
instrumentos musicais, e até os líderes de caçadores. Desta maneira nas
outras aldeias tinham somente os segundos líderes. Tinham as aldeias chamadas de Itakuruii, Pira’júmboaié
e Mossamby, que ficava numa ilhazinha onde localizava-se o cemitério dos
índios. Esses índios eram das tribos Chiripás e Phaím. Essas duas
tribos eram de peles claras, por esse motivo passaram a ser chamadas de
Guarani-Karijós pela sociedade branca, porque não sabiam a definição
certa. Mais ou menos por volta de 1.767 índios e 3.600
mulheres e crianças habitavam a Ilha de Santa Catarina. Nesta época
ainda não tinham muito contato com homens brancos. Ao passar do tempo a
infiltração do homem branco foi tanta que surgiram doenças como
tuberculose, bronquite e outras. Essas doenças foram que acabaram com
maior parte dos índios Guarani-Karijós. Os índios que restaram ainda sofreram pela segunda vezcom os
conquistadores da Ilha de Santa Catarina, que começaram as matanças dos
Guarani-Karijós. Desses índios sobraram apenas sete casais, que tiveram
que fugir para o sul da ilha. Escolheram a ponta sul da Ilha porque ficava
mais próxima do continente. A travessia aconteceu da ponta da Ilha até a
praia da Pinheira. Mas esses casais de índios não queriam ficar na beira
da praia por motivo de poderem ser massacrados de novo, então tomaram
rumo norte até depararem-se com o Morro dos Cavalos. Ficaram ali até
surgir a 1ª Guerra Mundial, que foi por volta de 1914. A partir daí
tomaram rumo oeste, próximo a Santo Amaro da Imperatriz. Lá acharam um
lugar chamado até hoje de Rio do Bugre. Foi somente a partir de 1942 que os índios foram aparecendo pouco a
pouco na região de Palhoça junto com os colonizadores. Desses índios
Guarani, já granfilhos destes índios Guarani-Karijós, que vieram a ser
nossos pais, restam só nós atualmente. A partir de 1978 começamos a procurar um lugar para ficar, até que
encontramos um lugar aqui no bairro São Miguel, município de Biguaçu.
Estamos neste lugar desde 12 de outubro de 1987. Nós somos os últimos
dos índios Guarani-Karijós que ainda falamos o nosso idioma nato. Por
este motivo, queremos parabenizar o nosso lugar e também a toda a
comunidade de São Miguel, Biguaçu e Florianópolis. Pedimos para os
nossos governantes que olhem mais para nós, que ajudem mais a minha
comunidade em termos de alimentos, para que um dia possamos ajudar o
Brasil. Agradecemos em nome da comunidade indígena pela compreensão e pela
honra que nos deu. Esta é a transcrição ipsis litteris do texto
manuscrito do cacique Milton Moreira WHERÁ MIRIM.
Os Últimos Carijós
A História da tribo dos guaranis Mbýas de São Miguel, Biguaçu (SC)
relatada pela tradição oral A aldeia dos índios guaranis de São Miguel, no
município de Biguaçu (SC), surgiu em 12 de outubro de 1987. Situa-se às
margens da rodovia BR-101, a cinco quilômetros ao norte do centro de
Biguaçu e a 20 do centro de Florianópolis Essa tribo, que reúne 79 pessoas, é chamada de
"Guaranis Mbýas". "Mbyá" significa "gente"
na língua guarani. O "morubixaba" (cacique) da tribo é Milton
Moreira Wherá, 37 anos. Classificada pelos antropólogos de "Mbýas",
a tribo se diz, no entanto, descendentes dos índios Carijós das tribos
"Chiripás" e "Phaim", da Ilha de Santa Catarina. "Essas
duas tribos eram de peles claras, por esse motivo passaram a ser chamadas
de Guarani-Karijós pela sociedade branca, porque não sabiam a
definição certa",, escreveu o cacique Milton Moreira Wherá num
pequeno ensaio em que resumiu, por escrito, a história de sua tribo
transmitida oralmente por gerações. O texto data de 15 de fevereiro de
1989. "Carijó" era como os bandeirantes chamavam
os índios de língua guarani que vivam no litoral catarinense nos
séculos XVI e XVII. "Carijó" vem de "Cari-yó", uma
palavra derivada de "Cari", que significa "branco" em
Tupi, a língua falada pelos bandeirantes vindos de São Paulo.
"Cari" vem em alusão à pele mais esbranquiçada dos índios
guaranis do litoral catarinense. Os índios da aldeia de São Miguel, Biguaçu, contam
que seus descendentes, os "Chiripás" e "Phaim", que
falavam um dialeto guarani, viviam na ilha de Santa Catarina. Eram
pescadores. Afinal, a Ilha de Santa Catarina era um paraíso da
pesca nos séculos XVI e XIX, antes do estrago (lê-se poluição e
degradação do meio ambiente) proporcionado pela ocupação e crescimento
desordenado da população branca (neoeuropéia ou descendente dos
europeus) nesse espaço geográfico. Hoje em Florianópolis e vizinhanças
vivem em torno de 250 mil pessoas. Os guaranis Mbýas falam com muita nostalgia da Ilha de
Santa Catarina, "onde tinha fartura de comida e peixe",
conforme palavras textuais do cacique Milton e seu sogro, seu Arcino
Wherá, o cidadão mais idoso da aldeia. "Chiripá" significa "escuro"; já
"Phaim" é "claro". O cacique Milton conta que eram
duas tribos distintas com indivíduos racialmente diferentes, mas falantes
de dialetos guaranis mutualmente compreensíveis. Dos casamentos entre
gente dos dois grupos, surgiu um povo autócone da Ilha de Santa Catarina
(Meimbipe, conforme os índios. Os "Chiripás" e os "Phaim" viviam
em quatro aldeias, conforme conta a tradição dos Mbyás de São Miguel,
Biguaçu. As aldeias são: 1) Tekoa guassú Há Há Kupé, 2) Itakuruii,
3) Pira'Jumboaié e 4) Mossamby. Os nomes perfeitamente
lembram as atuais localidades de 1) Cacupe (Há Há Kupé), 2)
Itacorubi (Itakuruii), 3) Pirajubaé (Pira'Jumboaié) e 4)
Moçambique (Mossamby). Sobre esse último, os índios dizem que se
tratava de uma ilhota onde situava-se um cemitério indígena. A aldeia de "Tekoa guassú Há Há Kupé",
conforme relata a tradição oral, era muito respeitada já que "nela
viviam caciques, curandeiros, conselheiros, líderes de instrumentos
musicais e até os líderes de caçadores", conforme escreveu o
cacique Milton Moreira Wherá. A CHEGADA DOS HOMENS "BRANCOS"
- Eis que apareceram os "homens brancos". A tradição oral dos
índios de São Miguel conta que os Chiripás e os Phaim sucumbiram a
epidemias de tuberculose, bronquite e outras doenças trazidas pelos
brancos contra as quais os índios não tinham defesa imunológica. As
doenças foram responsáveis pela morte de boa parte dos antigos
habitantes da ilha, contam os Mbyás de São Miguel, Biguaçu. Apesar das epidemias, relatam os índios, ainda
sobraram um bom número de silvícolas na Ilha de Santa Catarina. "Os
índios que restaram ainda sofreram pela segunda vez com os
conquistadores da Ilha de Santa Catarina (os brancos), que
começaram as matanças dos Guaranis-Karijós", observa o
cacique. ÊXODO- Os índios que sobraram na Ilha
de Santa Catarina, relata a tradição oral dos Mbyás, tiveram que fugir.
"Desses índios sobraram apenas sete casais, que tiveram que fugir
para o sul da ilha (de SC). Escolheram a ponta sul da Ilha porque ficava
mais próxima do continente. A travessia aconteceu da ponta da ilha até a
praia da Pinheira (Hoje no sul do município de Palhoça). Mas esses
casais de índios não queriam ficar na beira da praia por motivo de
poderem ser massacrados de novo, então tomaram rumo norte até deparem-se
com o Morro dos Cavalos", escreveu Milton Moreira Wherá. A fuga,
segundo ele, deu-se no século XVIII. REFÚGIO- Os índios viveram em relativa paz no Morro dos Cavalos
até entre o final do século XIX e o início do século XX. Um bom grupo
dos descendentes deles rumou para as matas do interior de Palhoça,
entrando em território de Santo Amaro da Imperatriz, indo instalar-se na
região popularmente conhecida por "Rio dos Bugres". Por quê?
Consequência da expansão da colonização branca e dos conflitos de
terra. O nome "Rio dos Bugres" alude à constante presença de
índios kaingangues e xoklengs, falantes de línguas das famílias
kaingangue e jê respectivamente. A tradição oral dos guaranis de São
Miguel, Biguaçu, relata inúmeras histórias de contatos não amistosos
entre os guaranis e os "bugres", comumente chamados os
"botocudos" (que usam espetados nos lábios, orelhas e bochechas
pequenos pedaços de madeira chamados 'botoques' como os kaigangues e
xoklengs, tidos pelos Mbyás como "gente arredia e de difícil
trato". RETORNO A MORRO DOS CAVALOS- Por volta dos anos 1940, conforme o
cacique Milton Moreira Wherá, o grupo deles saiu da região de Rio dos
Bugres retornando a Morro dos Cavalos, onde passaram a ter certa
proteção oficial do governo. Afinal, em 1914 houve a pacificação dos
"bugres" kaingangues e xoklengs. Em 1910, havia sido fundado o
Serviço Nacional de Proteção aos Índios que mais tarde, em 1967, virou
a FUNAI (Fundação Nacional do Índio). Nos anos 40, os índios
"soltos por aí" não precisavam mais temer os
"bugreiros", que tantos mataram kaingangues e xoklengs nas matas
do interior de Santa Catarina. De índole mais dócil e pacífica, os guaranis Mbyás não sofreram a
ação dos bugreiros, mas sua tradição oral não é isenta de histórias
de violências e conflitos com a sociedade branca, inclusive com os
"bugreiros". NOVA MIGRAÇÃO- O grupo viveu no Morro dos Cavalos, uma área de
terra que nos anos 70 virou parte da reserva florestal Parque do
Tabuleiro, idealizada pelo famoso botânico Raulino Reitz (1919-1990).
Raulino nasceu em Antônio Carlos em 1919. Antônio Carlos era um antigo
distrito do município de Biguaçu. Emancipou-se politicamente em 1963 e
virou um município. Faleceu em 1990. Reitz deixou vasta obra sobre
botânica. Foi também historiador. Escreveu dois livros de história
regional- “Frutos da Imigração” (1963) e “Alto Biguaçu- Uma
narrativa cultural tetrarracial” (1988). Ambos são a respeito da
história de Antônio Carlos, enfocando a colonização alemã. Mas, voltando ao assunto índios, ao longo do tempo, o Morro dos
Cavalos, onde estavam os guaranis Mbyás que se dizem descendentes dos
"Chiripás" e "Phaim" fugidos da Ilha de Santa
Catarina no século XVIII, passou a ser ocupado também por índios
guaranis vindos do Rio Grande do Sul e do Paraguai. Estes últimos saíram
de suas terras devido a conflitos de terras originários da expansão da
colonização branca. Surgiram, então, dois grupos distintos de índios guaranis na reserva
de Morro dos Cavalos. Um dos chamados "Mbyá", que se dizem
descendentes de guaranis da Ilha da Santa Catarina. Já os chamados
"paraguaios" são os Nhendevá", que, tal como
"Mbyá", também significa "gente" na língua guarani.
Existe também um terceiro grupo de guaranis que se chama
"Kayová". O grupo Mbyá, conforme o relato do cacique, tinha uma língua
originária do antigo dialeto da Ilha de Santa Catarina. Com o tempo e em
função do contato e os casamentos com indivíduos do grupo
"Nhendevá", os Mbyás foram falando mais o dialeto Nhendevá. Eis que nos anos 1960, por iniciativa do pai do atual
cacique Milton, o quase esquecido dialeto "como nossos ancestrais
falavam na Ilha de Santa Catarina" passou a ser incentivado a ser
falado entre eles. O pai de Milton era líder do grupo e a decisão de
falar a "nossa língua" foi fator de identificação do
grupo, que foi distinguindo-se da maioria Nhendevá. "Nós somos
os últimos dos índios Guarani-Karijós que ainda falamos o nosso idioma
nato", escreveu Milton. "Idioma nato" refere-se à
antiga língua dos índios Chiripas e Phaim ou algo próximo. NOVA TERRA EM BIGUAÇU- Em 1978, o grupo
Mbýa começou a procurar outra terra para se mudar. Morro dos Cavalos
tornou-se pequeno para tantos índios. Um grupo dos Mbyás foi-se embora
para Parati, no Rio de Janeiro, conforme relata o cacique Milton Moreira
Wherá. Na década de 90, registrou-se a migração de índios guaranis para
vários pontos de Santa Catarina. Aqui uma lista de onde grupos deles
assentaram-se: 1) Palhoça, 2) Biguaçu, 3) Guabiruba, 4) Itajaí , 5) Navegantes, 6)
Araquari. , 7) Joinville., 8) Barra do Sul. , 9) São Francisco do Sul.,
10) Joinville, 11) Passo de Torres, 12) Garuva, 13) Treze Tílias, 14)
Cunha Porã, 15) Ibicaré, 16) Itapiranga, 17) Dionísio Cerqueira, 18)
Guaraciaba, 19) Barra Velha, 20) Jaguaruna. 21) Araranguá e 22)
Guaramirim. Em 12 de outubro de 1987, os Mbyás do cacique Milton
Moreira Wherá Mirim assentaram-se em São Miguel, Biguaçu, às margens
da BR-101, num antigo camping abandonado. Hoje são donos da reserva,
apesar de ainda não estar totalmente legalizada pelo Governo Federal, o
que deverá acontecer em poucos anos. Em Santa Catarina, vivem atualmente em torno de oito
mil índios das tribos guaranis, xoklengs e kaingangues. Os índios de
Santa Catarina, além dos de outros estados brasileiros, somam 270 mil
indivíduos, o que representam 0,2% da população brasileira. Esses 270
mil índios estão divididos em 206 etnias e 170 línguas. Mas, voltando aos guaranis Mbýas, nos últimos 11
anos, os índios de São Miguel, Biguaçu, conseguiram melhorar sua
aldeia. Ganharam luz elétrica, melhoraram o abastecimento de água,
tiveram uma escola instalada em sua reserva neste ano de 1998 e ampliaram
amizades junto ao povo de Biguaçu. HISTÓRIA ORAL
- A
história oral dos índios Mbya é riquíssima. Mas eles não a
registraram por escrito. Só agora, nessa década de 90, é que os Mbyás
estão utilizando a escrita, adaptada ao português. Eles já possuem uma
escola indígena na aldeia, mas não há ainda cartilhas em guarani Mbyá.
Mas isso é outro problema. Esses índios, no entanto, não escrevem
frequentemente. Isso deve-se ao fato que a escrita não está na
tradição deles e escrever é um exercício árduo para quem não está
acostumado ou não possui uma sólida escolaridade. O cacique Milton Moreira Wherá escreveu em 15 de
fevereiro de 1989 um pequeno resumo da história de sua tribo. O
manuscrito foi passado a limpo a máquina de escrever e a cópia foi
xerocada. Esse texto, tudo que existe registrado por escrito sobre a rica
história oral dessa tribo, é utilizado pelo cacique nas aulas da
escolinha de sua aldeia. No entanto, o vasto material que se pode extrair da
história dessa tribo, relatada de geração a geração e contada nas
reuniões coletivas entre eles, está a espera do registro por escrito.
Florianópolis: nomes indígenas
Qual a origem dos nomes "Cacupé",
"Pirajubaé", "Itacorubi" e "Moçambique",
bairros e praia respectivamente da atual Florianópolis? Desconheço a tradução dos nomes desses lugares da
ilha de Santa Catarina em livros históricos de autores catarinenses. Não
sei se alguém já apresentou alguma tradução a respeito desses nomes. A
tradução que apresento neste breve artigo, que pode ser diferente a de
outros autores, vem de uma fonte fidedigna: os índios guarani mbyá, da
aldeia de São Miguel, em Biguaçu. Esses índios se dizem descendentes dos
"carijós", os antigos habitantes da ilha de Santa Catarina. Os
"carijós" foram quase totalmente exterminados por doenças e
escravidão pelos "bandeirantes", nos séculos XVI e XVII. Vale lembrar que o nome "carijó" era dado
aos guaranis que viviam no litoral catarinense pelos bandeirantes, os
temíveis caçadores de índios vindos de São Paulo. "Carijó"
(cari-ió) deriva de "cari", que significa "branco",
em alusão à pele mais esbranquiçada dos nativos catarinenses. Os
índios chamavam a si mesmos de "avá" ou "abá", cuja
tradução é "gente". Já os "bandeirantes" eram
conhecidos pelos nativos por "tapuya" (bárbaros). Conforme os guarani de Biguaçu, seus antepassados que
habitavam a ilha de Santa Catarina pertenciam a dois grupos distintos
chamados "Chiripá" (escuros) e "Phaim" (claros).
Originários do atual Paraguai, migraram rumo ao litoral catarinense
séculos antes da chegada dos europeus. Em função dos casamentos
interétnicos entre os dois grupos falantes de dialetos guaranis
mutualmente compreensíveis, surgiu o povo indígena nativo da ilha que os
colonizadores brancos encontraram nos séculos XVI e XVII. Segundo os guarani mbyá de Biguaçu,
"Cacupé" era uma grande aldeia onde residiam caciques,
curandeiros, conselheiros, músicos e caçadores. Vem de "Tekuá
guassú Há Há Kupé", que significa "Terra Grande do
Pé de Erva Mate". Já "Pirajubaé", outra aldeia, vem
de "Pirá'Jumboaié" (Outro tipo de peixe amarelo).
Reporta-se à abundância no local de um tipo de peixe amarelo que os
antigos índios carijós conheciam por "Pirá'Jumboaié". "Itacorubi" é a pronuncia aportuguesada de
"Itakuru-í", uma espécie de passarinho. O pássaro é o
"itakurú". O "í" significa "pequeno" no
idioma guarani. Portanto, "itakuru-í" significa "itakuru
pequeno", um passarinho, segundo os guarani mbyá, existente em
abudância próximo à antiga aldeia que passou a ser conhecida por esse
nome. Já a praia de "Mossambique" não tem nada a
ver, segundo os índios, com o país "Mossambique", da costa
oriental da África. O nome vem de "Mossamby", que
significa "cemitério". Segundo os guarani de Biguaçu,
"Mossamby" era uma pequena ilhota próxima à costa da ilha de
Santa Catarina onde os índios executavam seus deliquentes. Sim, os
carijós aplicavam a pena de morte, contam os guarani de Biguaçu.
Consistia-se no enforcamento do condenado numa árvore na ilhota do
"Mossamby". Onde está hoje essa ilhota? Segundo os índios de
Biguaçu, a ilhota de Mossamby, que ficava quase encostada à ilha de
Santa Catarina, já não existe mais. O pequeno estreito que a separava da
ilha de Santa Catarina está hoje ligado por aterro surgido pela erosão,
provavelmente pelo desmatamento da costa durante os últimos séculos.
Acreditam os índios que a ilha fica perto da atual praia de Mossambique.
Daí à alusão ao nome pelo qual o lugar passou a ser conhecido. A ilha de Mossamby era tida como maldita por causa da
proliferação de espíritos ruins, certamente almas penadas dos
executados. O interessante é que hoje a praia de Mossambique volta e meia
é percorrida à noite por pessoas que querem ver discos voadores. Não
seriam "espíritos voadores"? Os índios guarani mbyá têm grandes histórias.
O homem que gostava de macaco
Por Ozias Alves Jr (Jornalista de Biguaçu- Santa
Catarina- Brasil) - E-mail ozias@matrix.com.br
<mailto:ozias@matrix.com.br> Certa vez estava entrevistando um senhor idoso de Governador Celso
Ramos a respeito de qual era a comida dos antigos moradores do interior de
Biguaçu no começo do século XX. Buscava informações para uma pesquisa
histórica. - Os antigos comiam macaco, contou-me o informante. - Macaco? Que interessante. Como era o sabor? O senhor
já comeu macaco?, indaguei-o. - Não. Nunca. Isso era comida de matuto porco que
gostava de comer nojeira. Ora, onde já se viu! E eu tenho cara de comer
macaco, meu filho?!, respondeu-me o senhor com o ar meio arrenegado. Curioso, fui questionando-o sobre aquela informação
interessantíssima. Afinal, já havia lido a respeito de hábitos
alimentares dos índios que os colonizadores portugueses incorporaram. Os
índios comiam macaco. Muitos portugueses que chegaram ao Brasil
juntaram-se com as índias e dessas uniões nasceram mestiços conhecidos
por "caboclos" ('gente do mato', em tupi-guarani). O povo
brasileiro descende em boa parte parte desses mestiços (não esquecendo
dos negros. Mas isso é outra história). Os caboclos e colonos brancos que tiveram contato com
eles, como os portugueses açorianos que chegaram a Santa Catarina no
século XVIII, incorporaram o hábito indígena de comer macaco,
inclusive, às vezes, acompanhado de "pirão d'água" (do tupi,
'pirá''(peixe) + uí (farinha de mandioca)= pirá'ui=pirão). Com a devastação das florestas, o hábito de se comer
macaco desapareceu ao mesmo tempo que esses bichos tornaram-se cada vez
mais raros e os hábitos alimentares dos brasileiros foram mudando. Foi então que meu entrevistado disse que até no
começo deste século, ainda se podia encontrar algum colono do interior
de Biguaçu e Governador Celso Ramos que apreciava caçar e comer macaco. - E como é que o pessoal comia macaco? Frito?
Grelhado?, perguntei. - Não. Ensopado. - Ensopado? - Sim. Eles cortavam a cabeça do macaco e jogavam na
sopa para engrossar o caldo, observou. - E era gostoso?, indaguei. - Se era gostoso? Meu Deus do Céu! Era uma delícia. |