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. Protasio Paulo Langer - alexprotasio@netconta.com.br - Valdir Cemin
Com o presente trabalho, visamos analisar o percurso
histórico de um conflito étnico e fundiário que envolveu, de um lado,
pequenos e médios proprietários rurais e, de outro, um grupo de índios
Mbiá guarani, nas localidades de Araçá/Araçazinho, nos municípios de
Cunha Porã e Saudades, no oeste de Santa Catarina. Uma retrospectiva
histórica permite que o referido conflito possa ser identificado, de
forma latente ou manifesta, desde 1923. Todavia, desde esta data, que
marca a ocupação da região por frentes de colonização
ítalo-germânicas, não só o conflito, mas os próprios índios foram
sistematicamente negados pelos colonizadores que se tornaram dominantes na
região. Mas, em julho de 2000, cerca de duzentos índios Guarani,
procedentes de áreas indígenas de Santa Catarina e do Rio grande do Sul,
retomaram parte das terras por eles reclamadas como terras tradicionais
dos Mbiá Guarani. Diante dessa reocupação, o conflito interétnico não
pôde mais ser camuflado e as instituições governamentais tiveram que
tomar providências. Existem situações interétnicas ainda pouco estudadas
pela historiografia que, não poucas vezes, se preocupou mais em
reproduzir os conteúdos ideologicamente convenientes às elites regionais
do que em analisar dados empíricos relacionados à precedência
indígena. Os tão propalados memoriais aos pioneiros (que sempre
homenageiam o colono branco) e os festejos municipais que geralmente
enaltecem as etnias européias e obscurecem o passado indígena são
exemplos do eurocentrismo que impregnou as festividades, o senso comum e a
própria historiografia sul-brasileira. A presença indígena, e especificamente Mbiá Guarani,
na região oeste de Santa Catarina, desde longínquas datas, é tão
óbvia que sua simples comprovação não carece de novas pesquisas. Os
registros históricos, os artefatos arqueológicos, os relatos e, até
mesmo, fotos dos próprios colonos comprovam que a região, próxima aos
Rios Uruguai e Peperi-Guaçu, e Chapecó até há poucas décadas, era
ocupada por comunidades autóctones. Para exemplificar, citamos o mais antigo registro
histórico de um homem branco na região. Ulrich Schmidel, um mercenário
alemão a serviço do governo de Pedro de Mendonza, do Paraguai,
atravessou o rio Peperi-Guaçu, entre 1552 e 1553 (como indica o mapa no
anexo), chegando à margem direita do rio Uruguai, próximo à região de
Palmitos. Nessa região Schmidel encontrou uma povoação indígena da
nação Guarani. O arqueólogo Arno Kern, que há décadas pesquisa a
ocupação territorial e a cultura material Guarani, assegura que esse
grupo se distribuiu pelos “amplos espaços dos férteis vales dos rios
Paraguai, Paraná, Uruguai e Jacuí, bem como nos de seus afluentes”.Outra referência de grande importância para o estudo da ocupação
indígena da referida região é o mapa etnográfico de Curt Nimuendaju
Unkel que situa os Mbiá Guarani no Alto Uruguai gaúcho e no oeste de
Santa Catarina. Vilmar D’Angelis, que historiou a ocupação indígena do oeste
catarinense, apresenta uma instigante análise dos grupos étnicos que
ocupavam àquela região diante ao gradativo avanço das frentes
expansionistas. Num primeiro momento, o autor relaciona a diversidade
étnica e os atritos entre as etnias indígenas da região à conquista
dos campos de Palmas e Guarapuava pelos portugueses. Além de estimativas
demográficas da população autóctone, o autor analisa o comportamento
dos distintos grupos frente à progressiva ocupação alóctone da
região, como indica a citação a seguir: “Em 1826, as estimativas
portuguesas para a população indígena na região eram de 152
indivíduos Camés, 120 Votorões, 60 Xokrens localizados entre os rios
Iguaçu e Uruguai e também os índios Guaranis, bárbaros assistentes nos
bosques e faxinais inerentes ao Rio Uruguai estimados em 500 indivíduos”. Ainda segundo D’Angelis, a população indígena do Oeste Catarinense
distribuía-se pelo território em função de sua postura diante da
ocupação brasileira. Os índios que aceitavam essa ocupação buscavam
aliança com o invasor e se aproximavam da estrada de Palmas - Goio-En, ao
longo da qual, transitavam as tropas de gado e os extratores de erva-mate.
Os grupos mais hostis, refugiavam-se mais longe da rota da estrada. Devido um retraimento estratégico, até o ano de 1923, os contatos dos
Guarani da aldeia do Araça’í com as forças expansionistas, eram
esporádicos e não comprometiam diretamente a reprodução do modo-de-ser
desse grupo. Todavia, a partir daquele ano, os contatos e os conflitos
com as frentes de colonização que ocuparam o oeste catarinense
tornaram-se inevitáveis e intensos. No Brasil, como na América espanhola, a primazia dos povos indígenas
sobre as terras que ocupavam sempre foi reconhecida legalmente. Durante o
Brasil Império, as terras indígenas não podiam ser consideradas
devolutas e eram tidas por inalienáveis. Manuela Carneiro da Cunha
apresenta vários documentos do século XIX que consideram os índios
donos legítimos de suas terras. As citações que seguem indicam os
termos em que os direitos indígenas eram expressos: [...] Eles deverão ter a preferência sobre as
terras “em que estão arranchados” (1819). [...] Deve ser a
arbítrio e escolha dos mesmos índios: parece injustiça que ao dono
da casa se determine lugar para sua estada. (Consulta à Câmara de
Barbacena sobre as terras que mais convinham para aldeamento dos
índios). [...] José Bonifácio afirmava que os índios eram os “legítimos
senhores [das terras que ainda lhes restavam] pois Deus lhas deu.”
[...] Pela Lei de Terras de 1850 fica claro que as terras dos índios
não podem ser devolutas. O título dos índios sobre suas terras é
um título originário, que decorre do simples fato de serem índios:
esse título do indigenato, o mais fundamental de todos, não exige
legitimação. No começo do século XX, a política indígena foi redirecionada. Com
o estabelecimento da República, as terras devolutas da União foram
entregues aos Estados, que ficaram com o direito de medi-las e doá-las.
Além dessa providência, foi criado o SPI (serviço de proteção ao
índio), que passou a articular a questão indígena às necessidades
geopolíticas de nacionalização das fronteiras. A preocupação
principal passou a ser o abrasileiramento dos índios no intuito de
incorporá-los à nação como guardas de fronteiras. Sendo assim,
uma das funções do SPI seria diligenciar para que os índios das
fronteiras não cedam à atração das nações limítrofes e para que se
desenvolvam neles, vivamente, os sentimentos de nacionalidade brasileira. Tais diretrizes confluíram para aquilo que José Catafesto de Sousa
chama de velamento dos autóctones, ou seja, o não reconhecimento da sua
indianidade e, por conseguinte, dos seus direitos consuetudinários. A
hipótese que colocamos é que nem para o SPI e muito menos para as
Companhias colonizadoras, ou para os próprios colonos, interessava
reconhecer a existência dos Mbiá Guarani na região. Na ânsia de
afirmarem sua primazia sobre as terras adquiridas das Companhias
colonizadoras e de se abastecerem com mão-de-obra barata, os colonos e as
Companhias produziram um discurso impregnado de valores eurocêntricos que
camuflava a autoctonia da população que os havia precedido. Destacamos, a seguir, algumas facetas do discurso do encobrimento da
indianidade que até hoje continua sendo reproduzido como subterfúgio
ideológico que denega os direitos conquistados pelos índios na
Constituição de 1988. Recentemente, Roque Jungblut publicou uma obra
sobre a colonização de Itapiranga (cidade do Oeste Catarinense, vizinha
do Araça’i) em que se refere à população nativa da região da
seguinte maneira: Os colonizadores encontraram habitantes de etnias
diferentes. Alguns eram parecidos com índios, outros eram
bastante morenos, sem aparência indígena. Genericamente eles mesmos
se denominavam de caboclos ou brasileiros. Haviam centenas de
famílias dessas, que residiam nos dois lados do Rio Uruguai. Tinham
consciência de que não eram donos das terras por isso não reagiram
ao serem desalojados. [...] eles viviam pelos matos sem moradia
[...] Falavam o Português, o Espanhol e alguns o Guarani (grifo
nosso). Como podemos observar, segundo o autor, não havia índios na região,
mas apenas caboclos e alguns parecidos com índios. O problema fundiário
é sumariamente negado quando afirma que esses habitantes tinham
consciência de que não eram donos das terras que ocupavam, motivo pelo
qual não reagiram. Nas entrelinhas, podemos ler que antes mesmo da
colonização ítalo-germânica os “caboclos e parecidos com índios”
tinham consciência de que as terras, donde tiravam seu sustento, não
eram suas. Se assim fosse, estaríamos diante de um fenômeno totalmente
inédito na história da humanidade. Que outro exemplo o autor poderia
evocar de populações que tradicionalmente ocupam determinado território
e que tem consciência de que este não lhes pertence? Essas afirmações
não deixam margem a dúvidas de que estamos diante de uma formulação
cristalina da ideologia que encobre as alteridades nativas e justifica sua
expropriação territorial em prol de uma “gente de melhor espécie”. O pano de fundo dessa ideologia é a supremacia da
economia de mercado sobre a economia tradicional (cabocla ou indígena);
da exploração agrícola intensiva sobre a exploração baseada na coleta
extrativista, na caça e na agricultura de pequeno porte; do progresso
sobre a tradição; e, finalmente, do europeu sobre o nativo. Este último
é considerado, pela ideologia eurocêntrica dos colonos um Waldlöufer,
que significa andarilho do mato, sem parada fixa e sem origem. Roque
Jungblut, como bom porta voz da ideologia eurocêntrica, ouviu dos colonos
e reproduziu a seguinte explicação: [...] eles próprios não sabiam sua origem. Diziam
que sempre viveram nas matas da região. Para os colonizadores, eles
eram os índios Guarani que sobreviveram à interferência do homem
branco, seja pelos missionários, seja pelos conquistadores
espanhóis, ou pelos bandeirantes da Coroa Portuguesa e ou Exército
do Império Brasileiro. Esse discurso não deixa de ser uma maneira de
extinguir, simbolicamente, a alteridade em questão. Quem não sabe de sua
origem perdeu sua identidade, sua história e, como tal, não tem projeto
de realização utópica. O estatuto ou a explicação mais generosa que
os colonos formularam era a de que essa gente representava os
sobreviventes de agressões de frentes de expansão ocorridas em séculos
pretéritos. De qualquer forma, a população que os colonos encontraram
não correspondia às suas idealizações acerca do ser índio, motivo
pelo qual decretaram que estes não eram, ou então, que eram “restos”
de. E o SPI, porque não reconheceu a presença dos Mbiá Guarani na
referida região? Uma hipótese possível é que este grupo era visto com
desconfiança pelos ideólogos da nacionalização das fronteiras, que
norteavam a política do SPI pois, historicamente, os guarani, de modo
geral, eram identificados como súditos da coroa espanhola e,
posteriormente, dos Estados Nacionais platinos. Acrescenta-se a isso o
fato de o extremo oeste catarinense e o sudoeste do Paraná ter sido uma
região longamente disputada pela Argentina, haja visto que somente em
1895 o presidente Norte Americano, que arbitrou a querela, deu ganho de
causa ao Brasil. Nesse sentido, reconhecer a presença dos Mbiá guarani
na região poderia fortalecer a ambição argentina sobre essa área e
demarcar uma reserva indígena para esse grupo representaria antes um
risco à hegemonia territorial brasileira, naquela região, recentemente
reconhecida pela diplomacia internacional. Uma frente colonizatória com
descendentes de alemães e italianos seria vista como muito mais segura e
promissora aos olhos das autoridades nacionais da época. Porém, essa é
apenas uma hipótese que não temos condições de comprovar no presente
trabalho. Todavia, a principal explicação do encobrimento dos Mbiá Guarani
deve ser buscada nas sinuosas estruturas da política fundiária. Os
setores dominantes da sociedade, com o acesso à informação e aos
círculos do poder, acabavam titulando para si enormes extensões de
terras com o fim único de lucrar com a revenda, às empresas
colonizadoras ou diretamente aos colonos. As estruturas jurídicas e
administrativas foram subordinadas aos interesses locais de colonos,
comerciantes e industriais de ascendência européia. Esta prática
arrebatou as terras tradicionalmente possuídas pelos índios, como se
fossem devolutas e passaram a titular para fazendeiros interessados. Sobre o processo de expropriação territorial da população nativa,
pelas frentes “pioneiras” que chegavam a Santa Catarina, Silvio Coelho
dos Santos declara que: “O caboclo e o índio saíam das terras em que
as companhias tinham interesse, pela força das armas dos jagunços
contratados, ou pela presença da justiça e da polícia, constantemente
manipulados pelos empresários, ou pela aquisição de benfeitorias pelos
empresários. No processo de violenta expropriação da população nativa, do oeste
catarinense, poder-se-ia inventariar, estabelecer e apurar toda uma
hierarquia de usurpações, negociatas e arbitrariedades. Por um lado, o
modelo de colonização reflete bem o poderio político e econômico do
imperialismo norte-americano, cujas empresas (construtoras de estradas de
ferro) conluiadas com os governos oligárquicos, eram “presenteadas”
com enormes latifúndios há muito ocupados por posseiros e comunidades
autóctones. O governo brasileiro beneficiou a empresa Norte Americana “Brasil
Development e Colonization”, com uma imensa extensão de terra na Área
do Contestado. Essa empresa retalhou a terra barganhada, em glebas
menores, e repassou para empresas particulares a demarcação e revenda de
colônias. Porém, há anos tramitava na justiça um processo impetrado pela
empresa norte-americana contra o Estado de Santa Catarina por este ter
repassado uma área a oeste do rio Chapecó para a empresa Bertaso &
Maia. Apesar do andamento deste processo, a empresa vendeu uma área
distinta entre os rios Peperi-Guaçu e Chapecó, inclusive a área
litigada, para a Colonizadora Chapecó-Peperi, responsável pelo início
da colonização ítalo-germânica no Extremo Oeste. Esta questão somente
foi solucionada quando a Companhia Chapecó-Pepery, revisando o contrato
firmado com a Companhia Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande,
estabeleceu nova área e iniciou a colonização entre os rios
Peperi-Guaçu e rio Antas. Supomos que o processo entre a empresa norte-americana e o governo do
Estado foi pretexto para a criação da Empresa Oeste Catarinense, pois, a
perspectiva dos grandes lucros vislumbrados pelos empresários a partir da
comercialização das terras e madeiras, gerou disputa acirrada pela posse
da região, onde saía vencedor quem tinha maior influência política
junto ao governo estadual. A exemplo disso, surge a Empresa Construtora
Oeste Catarinense Ltda., sendo seus principais acionistas, os deputados
Abelardo Luz, filho do então governador catarinense, Hercílio Luz, e
Henrique Rupp com objetivo de “colonizar” a área conseguida junto ao
governo do Estado. Pois, o “suposto” pagamento das terras devolutas ao
governo do Estado era efetuado mediante a abertura de estradas. A Companhia Territorial Sul Brasil, Sociedade Anônima
com sede em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, foi constituída em 23 de
maio de 1925 e, no mesmo ano, com a aprovação do governo do estado de
Santa Catarina, adquiriu a empresa Construtora e Colonizadora Oeste
Catarinense Ltda, em liquidação. Os acionistas da empresa eram gaúchos
bem sucedidos que buscavam a comercialização das madeiras e das terras. Todas essas disputas políticas e jurídicas denotam que os interesses
e os lucros vislumbrados por políticos e empresários naquela região
eram de tal modo intensos que suscitavam constantes litígios. Enquanto
isso, a população autóctone assistia, impotente, a fragmentação do
seu território tradicional seguida pela sua desterritorialização.
Diversos acontecimentos, narrados pelo grupo que hoje requer a
demarcação de uma área indígena na região, contestam as afirmações
de Jungblut de que o desalojamento da população nativa tenha sido
consentido devido a uma suposta consciência da população nativa de que
as terras que ocupavam não eram suas. Na memória das lideranças indígenas que entrevistamos, os primeiros
contatos, os constrangimentos e a diáspora que se seguiu à
expropriação, ainda estão bem vivos. O cacique João Barbosa, que nos
explicou a dispersão dos Mbiá Guarani, relembrando as histórias que seu
pai e avô lhe haviam contado, afirma que o primeiro contato com os
brancos, na década de 1920, foi a “ocorrência de fogo nos pinhais”.
No momento em que os índios foram apagar o fogo, depararam-se com homens
brancos, também nesta tarefa. A retirada de ambos teria sido silenciosa e
sem conflito. Em meio aos relatos que registramos, é freqüente a alusão
ao sal para temperar a carne, e às armas e ferramentas dos brancos que os
índios do Araça’í aprendiam a manejar, tornando-se, pouco a pouco,
dependentes desses produtos. Numa outra ocasião, entre 1923 e 1930, os brancos
propuseram a derrubada de pinheiros, dizendo que era para o melhoramento
das casas dos índios, mas, com a dificuldade no entendimento do idioma,
não houve concordância. Os brancos, representantes da Colonizadora Sul
Brasil, retiraram-se. Em pouco tempo, os índios Guarani que ali viviam
foram cercados pela ação da colonizadora. Com a demarcação dos
loteamentos, os índios foram cada vez mais acuados a limites territoriais
que não existiam na sua concepção de espaço tradicional. A caça, a
pesca e a migração ficaram cerceadas. Como se não bastasse, segundo o
cacique, “depois que começaram descobrir que tinha índio Guarani ali,
daí os brancos começaram entrar ali com espingarda, ameaçando eles e
(os índios) já foram indo, alguns já foram ... não tinha mais, daí
eles começaram a varar até o Uruguai (rio) por causa de medo, né? Daí
foram na reserva Kaingang no meio do mato também. Mas era do Kaingang”. Após a ocupação da região por colonos brancos, a
colonizadora deixou uma área a título de reserva florestal e esta
continuou sendo ocupada pelos guarani. A existência dessa reserva foi
identificada pela Jussara Rezende e confirmada no laudo antropológico
realizado pela antropóloga Kimiye Tomasino. No final da década de 1960,
a reserva florestal, ocupada pelos Guarani, foi apropriada por uma
madeireira e, em 1970, ocorreu a expulsão definitiva da população que
ocupava aquela área. Essa expulsão é narrada até hoje pelos
remanescentes. O guarani Artur da Silva afirma que: “Quem expulsou foi
os brancos; alemão, italiano...”. Um outro, Sebastião André, teve sua
casa queimada em 1970. Depois disso, mudou-se para a Terra Indígena de
Nonoai. Partindo das entrevistas com o cacique João Barbosa,
podemos inferir que as relações interétnicas, entre brancos e índios,
tornaram-se de tal maneira conflituosas que a própria sobrevivência
física dos guarani esteve seriamente ameaçada. Ao narrar a história da
diáspora guarani, do Araça’i, o cacique se dirige a um dos presentes
para que este confirme o que sucedeu com seu sogro: Até o pai da ... da... mulher dele, que é ela,
conta uma história também ... que ela tá aí, que ela se criou lá
que o pai dela residiu lá, até foi morto lá. Ele foi matado, ele
pegou empreitada. Até não sei se ouviu falar de um tal de [...].
Agora só tem os filhos dele. Daí eles eram só em dois irmãos. Eles
eram capazes (capatazes?) e invadiram dentro da reserva. Antonio
Candido Mariano [¼] daí empreitaram,
pegaram roçada, eles não sabiam roçar e ensinaram a roçar e daí
quando foi para receber o pagamento, daí deram umas pauladas pegaram
assim e cortaram tudo assim (com gestos assinalando os ferimento da
agressão na cabeça, pescoço, ombros). Como naquela época não
tinha médico, daí o trouxeram tudo cortado: a cabeça, o corpo, tudo
assim cortado de facão e deixaram uns cinqüenta metros da aldeia,
mas nem avisaram, nada. Deus me livre. Daí sepultaram lá mesmo. Diante desses relatos é interessante observar a
similitude entre as diversas situações de contato interétnico. Os
conflitos de Araça’i seguem, até hoje, a mesma lógica que Roberto
Cardoso de Oliveira já havia observado nas suas pesquisas de campo pelo
Brasil afora, nas décadas de 60 e 70. Os índios buscam, junto aos
brancos, ferramentas e outros produtos manufaturados, dos quais se tornam
dependentes. Os brancos procuram se apropriar das terras indígenas e
obter mão-de-obra escrava ou semi-escrava. A base do sistema interétnico está na conjunção
de interesses econômicos contraditórios: o índio procurando obter
bens manufaturados (armas, instrumentos agrícolas, cachaça, roupa
etc) e o branco procurando se apossar do território e ou da
mão-de-obra indígena. O contato entre índios e brancos em todas as
frentes de expansão da sociedade nacional obedeceu a essa preliminar. Para os propósitos do presente artigo, importa
destacar que o conflito acima referido ainda está em vigor. Em relação
às teorias que previam a extinção gradativa mas irreversível da
população indígena, o caso do Araça’í é um exemplo contundente da
resistência e sobrevivência indígena para a posteridade. Os Guarani do
Oeste Catarinense não foram diluídos ou assimilados pela sociedade
alienígena eurocêntrica que se implantou sobre seus antigos domínios.
Diante da impossibilidade de resistir e defender suas terras, a
população do Araça’í dispersou-se e refugiou-se em reservas Xokleng
e Kaingang. Mas, como eles mesmos afirmam, apenas estão morando de favor
nas reservas de Votouro, Serrinha, Cacique Doble, Mbaracá Mirim, Prata e
Passo Feio, no Rio Grande do Sul, e no Toldo Chimbangue, em Santa
Catarina. Segundo eles, vivem como se fossem exilados, com pouca terra
para a sua subsistência e, agora sim, conscientes de que esta não lhes
pertence. É interessante observar que nem a diáspora e nem o
intenso convívio interétnico com os Kaingang representou o abandono da
língua e dos costumes tradicionais guaranis e, tampouco apagou da
memória de seus indivíduos a lembrança da aldeia do Araça’i e o
sonho de reconquistá-la. Mesmo dispersos em seis áreas indígenas,
distantes umas das outras, os desterrados do Araça’í estabelecerem uma
rede de contatos e preservaram elementos culturais suficientes para
ressurgirem como um grupo étnico, determinado a retomar as terras
tradicionais que lhes foram usurpadas pela lógica do mercantilismo, do progressismo
e do eurocentrismo. Na madrugada de 10 de julho de 2000, cerca de duzentos
Guarani, procedentes de áreas indígenas de Santa Catarina e Rio Grande
do Sul, retomaram uma ínfima parcela - 49 hectares - das suas terras
tradicionais. Segundo o cacique guarani João Barbosa, a terra
tradicionalmente guarani abrange, desde às margens do rio Uruguai,
estendendo-se para São Carlos, Saudades, Águas de Chapecó, Pinhalzinho,
Cunha Porã, Cunhataí e Modelo. “Ali naquela região era tudo Guarani.
Tinha uma aldeia lá, outra lá¼”. Estes fatos confirmam a teoria da antropóloga Manoela
Carneiro da Cunha, quando afirma que a etnicidade não desaparece entre
aqueles que sobrevivem à diáspora mas torna-se mais intensa. Graças ao
resguardo da etnicidade, os guarani do Araça’í estão removendo o véu
que os ocultava e negava como sujeitos históricos. A
reterritorialização desse grupo é uma conquista histórica em se
tratando de um reparo (ainda que tardio) de injustiças legalizadas pela
lei dos mais fortes. Finalizando, interessa destacar que o Araça’í não é um caso
isolado de ressurgimento e reconstituição étnica de grupos que lutam
por um projeto histórico próprio e irredutível ao projeto neoliberal. A
descolonização, empreendida pelos colonizados, manifesta-se em diversos
movimentos brasileiros e latino-americanos cuja característica comum é a
reconquista das terras tradicionais e o reconhecimento dos seus valores
culturais e de um projeto histórico alternativo ao neoliberalismo
globalizante e o hostil às alteridades etno-culturais. Para Paulo Suess,
o significado das lutas dos povos indígenas confunde-se com as lutas dos
historicamente oprimidos e representa, em última instância, a
superação de uma trajetória colonial e neocolonial de cunho racista,
excludente e desumanizador. Concluímos com uma citação de Suess, para quem a questão do Araça’í
deve ser vista como um sopro de esperança por um mundo mais igualitário
e humanizado: O "lucro" está na conquista e retomada
de espaços de vida e no orgulho de pertencer a um povo indígena, na
auto-estima da comunidade, não na acumulação de bens ou no negócio
de alguns. Contra os que definem o início e o fim de sua história,
os povos indígenas, ao retomar as suas terras, estão reafirmando seu
projeto histórico, como o fazem o movimento dos sem-terra, o
movimento negro e o movimento feminista. Em plena euforia de
desterritorialização do capital vivemos uma reterritorialização
emergente e real a partir das retomadas das terras indígenas. Algo
semelhante acontece com o movimento dos sem-terra que representa a
memória histórica da reforma agrária negada.
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