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EM BUSCA DA TERRA SEM MAL "Singular e
assombroso o destino de um povo como os Guarani! Pressionada pelo avanço da
colonização européia, a população Guarani que permaneceu "Ñanderuvusu (Nosso
Grande Pai) veio à terra e faliu a Guyrapotý(nome do xamã incubido de
liderar a partida): ‘Procurem dançar!, a terra quer piorar!’ Eles
dançaram durante três anos quando ouviram o trovão da destruição. A
terra desabava pelo oeste. E Guyrapotý disse aos seus filhos: ‘Vamos! O
trovão da destruição causa temor’. E eles caminharam, caminharam para
o leste, para beira mar. E eles caminharam. E os filhos de Guyrapotý Movimentos como esse foram consideravelmente intensificados com o avanço das colonizações brasileira e paraguaia sobre a mata contígua ao rio Paraná. O caminho percorrido por esses novos "viandantes" foi o seguinte: do Paraguai passaram para a Argentina e de lá, na busca da costa Atlântica, para o Brasil. Hoje encontram-se e pequenas comunidades desde o Rio Grande do Sul até o Pará, em terras pertencentes a outros grupos étnicos, em moradias improvisadas a beira de estradas, em terras cedidas por prefeituras ou em territórios administradas por entidades ambientalistas.
Causas do Êxodo Na motivação que os impulsiona a caminhar aparece claramente a necessidade de ter um lugar onde lhes seja possível viver em segurança seu antigo modo de ser. A causa ultima de seu "nomadismo" deve à busca da "Terra-Sem-Males", que, na orientação espacial do grupo, fica do Atlântico, como pode ser verificado nos seguintes cantos:
A causa penúltima do êxodo indígena,
porém, se encontra no Oeste. Poucos anos depois A causa mais gritante da atual dispersão, porém, é sem dúvida a colonização que se intensificou, na segunda metade deste século, na região de fronteira entre o Paraguai e Brasil. Uma das características da ocupação das terras dessa região é a violência com a qual a natureza foi subjugada e posta a serviço do "progresso". A monocultura avançou derrubando matas, expulsando os indígenas que nelas habitavam ou sujeitando-os como peões baratos ‘as novas fazendas, cujos proprietários são, na maioria, brasileiros.
História nada exemplar É curioso e "irônico"
constatar que, enquanto os Mbyá-Guarani que percorrem o litoral e a
região Sul do Brasil são considerados "índios paraguaios" por
órgãos do Estado brasileiro – que tentam, desse modo, evadir-se da
responsabilidade frente a esses indígenas -, a A vida dos Mbyá-Guarani que
permaneceram na região como mão de-obra barata nas Mas voltemos aos Mbyá-Guarani retrados por Paulo Porto Borges, esses que falam do yvy marae’y como uma terra preservada para eles e que alcançarão em breve. A busca da "Terra Sem-Males" tem sido interpretada, erroneamente, como algo utópico, como um não-lugar. Como se, para aperfeiçoar a vida e se aperfeiçoarem, os indígenas pudessem prescindir de espaços concretos. A Terra Sem-Males Essa interpretação tem favorecido um
certo descompromisso dos agentes indigenistas Em parte, essa postura pode ter sido influenciada pelos próprios indígenas. No passado, estes foram contrários a demarcação de seus espaços específicos para eles, por negarem o direito à apropriação individual de bens comuns e por entenderem que a demarcação de espaços poderia obriga-los a uma sujeição ao Estado Brasileiro. Nos últimos anos, porém, os Mbyá-Guarani tem reivindicado para si o direito a terra, como é cantado na canção 09 do CD recentemente gravado por eles: Peme’e jevy, peme’e jevy Restituam, restituamOre yvy peraa va’ekue A nossa terra que vocês tomaramRoiko’i aguã Para que a gente continue vivendoO discurso religioso que sustenta a reivindicação é a convicção de que, para alcançar a "Terra Sem-Males", é preciso viver conforme o sistema Guarani: caçar, plantar e celebrar como um Guarani. Para tal, é imprescindível a terra (tekoha), pois, sem ela não há cultura (teko). Particularmente, a situação fundiária dos Mbyá-Guarani acampados à beira de estradas e mais periclitante. Esses acampamentos estão situados ao longo das rodovias públicas dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Garlet e Assis escrevem a este respeito: "A preferência é por locais onde seja possível encontrar faixas de mata e alguma oferta de matéria prima para a confecção de artesanato (...). Conseqüentemente, as famílias (...) dependentes estão continuamente expostas a mais gritante miséria, enfrentando a fome, alta incidência de doenças, impossibilidade de manter ativadas práticas culturais importantes como os rituais religiosos e morando em insalubres barracos cobertos de lona plástica" (1999, p. 13) A atitude que predomina, porém, não de
desespero. Assim, quando os Guarani ouvem o Extraído do livro:Cadernos do COMIN. Os Guarani:sua trajetória e seu modo de ser.
Bibliografia: BURRI, Stefannie. Um pueblo em dispersión, los Mbyá. Acción, 1(137):27-30. Asunción, 1993.GARLET, Ivori. Mobilidade Mbyá: história e significado. Porto Alegre, PUCRS, 1997. 200p. (Dissertação de Mestrado)NIMUENDAJU, Kurt Unkel. As lendas da criação e destruição do mundo como fundamento da religião dos Apaspocuká-Guarani. São Paulo: Edusp/HUCITEC, 1987. |