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A cara do Brasil

Minha filha pegou o volume "Memórias do Seu Nenê da Vila Matilde", ficou um tempo com ele, fez perguntas e o encheu de elogios. Vale o mesmo para a reação de meu filho. Dois adolescentes que, para minha surpresa, não se entusiasmaram apenas com as fotos, a diagramação leve e agradável, a capa em filme fosco com decalques brilhantes, como manda o figurino das últimas novidades da indústria gráfica. Tudo isso, na edição pra lá de caprichada da Lemos Editorial e o aval do CPC-UMES, com certeza os chamou para dentro do volume, mas uma frase do Seu Nenê, citada por um deles, exemplifica bem o que nele encontraram: "Se não lutar e não fizer bem feito, não fica nada para o futuro". É muito bom que essa existência e sabedoria possam chegar ao público.

Em 1983, numa dessas noites quentes do verão, fui levado pelo amigo Ubiraci Dantas, então diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, à quadra coberta da escola de samba Nenê da Vila Matilde. Assisti ao ensaio cárdio-retumbante da poderosa bateria, à agilidade do Mestre-Sala e da Porta-Bandeira, aos preparativos para o desfile e, para minha honra, fui apresentado ao Seu Nenê, fundador e presidente. De volta a Porto Alegre, passei não só a acompanhar o desempenho da escola, como, vestindo a camisa, a torcer por ela. Agora, com o livro nas mãos, logo percebi que o material é cheio de vida, de histórias, aquela coisa bem contada que parece que dá para a gente pegar os fatos com a mão e acariciá-los, como acontece com os melhores romances, em que o autor obtém aquela espécie de síntese de uma verdade. E, digamos de passagem, sintetizar a vida real sem a liberdade do ficcionista é muito mais difícil. O Seu Nenê tem os méritos: não só como fundador do carnaval paulista, não só como liderança popular e negra capaz de dar vasão aos anseios mais profundos de nossa gente, mas, inclusive, como um excelente contador de memórias. Entretanto, o mesmo material, gravado em tantas e tão numerosas sessões, à disposição de outra cabeça para organizá-lo - que trabalhão, imagino! - seguramente não teria a mesma atenção para as questões mais sentidas do povo, o mesmo estímulo aos seus momentos maiores no enfrentamento das dificuldades e do preconceito, a mesma visão cristalina das questões históricas e culturais, que conquistou com o trabalho da jornalista Ana Braia.

O compromisso assumido entre os dois resultou numa obra em que ambos estão de parabéns. Quem gosta de música, samba, carnaval, vivências e lutas do nosso povo, enfim, quem não virou a casaca e curte a cultura brasileira, tem um prato cheio pela frente. Não é toda hora que surge um livro assim, com a cara do Brasil.

SIDNEI SCHNEIDER

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